Segunda edição do Índice de Transparência da Moda Brasil analisa práticas de 30 grandes varejistas

A segunda edição do relatório do Índice de Transparência da Moda (ITM) Brasil, realizado pelo núcleo brasileiro do Fashion Revolution, acaba de ser lançado, dessa vez com a análise de 30 grandes varejistas – 10 a mais do que no ano passado. O ITM é um relatório global que pretende ampliar o debate sobre transparência na cadeia de valor e estimular a cultura de prestação de contas entre as empresas.

O relatório analisa e representa em textos, artigos e infográficos, o quanto as marcas divulgam sobre sua gestão interna e cadeias produtivas, em cinco diferentes critérios: Políticas e Compromissos, sistemas de Governança, estratégias para a Rastreabilidade, o quanto são capazes de Conhecer, Comunicar e Resolver falhas internas, e Tópicos em Destaque, que são adaptados a cada ano.

Capa do relatório 2019.

Nesse ano o conteúdo, que pode ser baixado aqui, foi ampliado de 71 para 91 páginas, e conta com os artigos opinativos de Mércia Silva, diretora da InPacto, da antropóloga Carol Delgado e Leonardo Marques, da COPPEAD-UFRJ. Entre as marcas analisadas, estrearam na lista: Carmen Steffens, Colcci, Colombo, Dumond, Leader, Lojas Avenida, TNG, Arezzo, Torra e Decathlon; sendo que apenas as três últimas tiveram alguma pontuação. O restante zerou, ou seja, são completamente “opacas” em relação à suas práticas.

As varejistas Pernambucanas, Renner, Riachuelo, Hering e Osklen tiveram os maiores aumentos de transparência em relação à edição passada. No topo da lista, a C&A trocou o maior posto com a Malwee, chegando a pontuar em 97% no critério de Política e Compromissos, que olha para planos de metas relacionados a direitos humanos e gestão de recursos naturais.

Me chama a atenção entre os resultados gerais, a queda de pontuação da Farm, que no ano passado finalizou com 15%. A marca vem constantemente atuando em seu plano de circularidade de materiais e peças, e outras ações como a Green Friday, que beneficiou ONG’s que atuam na limpeza do óleo no nordeste, e o Clube Farm, mas aparentemente não está investindo a mesma energia em comunicar essas ações e consolidá-las. Outro ponto de atenção é o fato de as marcas John John, Le lis Blanc, Moleka, Olimpikus, Cia. Marítima, Brooksfield, terem aparecido novamente com 0 na pontuação.

Uma informação interessante foi o “empoderamento” da Osklen em relação à sua expertise com rastreabilidade, algo que desenvolve há quase dez anos com o projeto Traces, levantando informações sobre sua pegada socioambiental, de carbono e hídrica. De 2018 para o Índice atual, a empresa quase dobrou sua pontuação nesse critério, ficando atrás apenas da Havaianas. Ambas integram o grupo Alpargatas, e segundo o Índice, divulgaram dados sobre “alguns de seus fornecedores diretos, de matérias-primas e das instalações de processamento e beneficiamento.”

No critério Conhecer, Comunicar e Resolver, a Zara mostra que fez um bom dever de casa após as denúncias de 2011, tendo sido a única marca a divulgar descobertas das auditorias, identificando o perfil de casos ocorridos em instalações específicas, além do nível 1, sobre temas como saúde e segurança, discriminação, salários e horas de trabalho, por meio do portal Better Work, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O lançamento desse ano contou novamente com a presença de Sarah Ditty, diretora de políticas do Fashion Revolution Global, que apresentou resultados do último Índice de Transparência Global, lançado em abril. Houve, também, um painel discutindo os reflexos do Índice no setor, com atores relevantes que representam recortes das especificidades do projeto, como raça, gênero e imigração.

Conversei com Sarah sobre os destaques do relatório, em sua opinião. Segundo ela: “Foi muito animador ver o aumento da pontuação da Osklen já que eles são pioneiros em sustentabilidade e rastreabilidade no mercado brasileiro e também no internacional. Há projetos que eles realizam, e não comunicam de fato publicamente , então eu acho que essa é uma grande oportunidade para eles reconhecerem o valor dessa comunicação. Também foi ótimo ver a Malwee com 55%, e Renner com 52%, o que bota eles no segundo maior padrão de pontos, também em relação às pontuações no índice global.”

De acordo com Sarah, foi excelente ver o aumento de 5 para 10 marcas comunicando a sua lista de fornecedores de peças manufaturadas, e 5 marcas publicando fornecedores de matéria-prima, já que essa informação auxilia sindicatos e associações de trabalhadores a resolver problemas diretamente em sua fonte, tendo como referência direta qual marca é responsável pela contratação.

Ela também contou que no próximo ano o Fashion Revolution irá se dedicar mais ao tema da escravidão moderna. “Quando falamos de condições de trabalho também estamos falando de trabalho forçado, e por isso é crucial que a transparência aprofunde o olhar sobre os níveis de fornecedores. São nesses níveis onde o risco de escravidão moderna é muito maior, pois são partes escondidas da cadeia produtiva.”

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