Conversa com a VERT Shoes sobre sapatos e novos paradigmas

Para quem ainda não conhece a VERT, a marca de eco-sapatos foi criada em 2004, em Paris, pelos franceses François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp, com foco no desenvolvimento de um produto que gerasse impacto social e ecológico positivo. Para estudar as possibilidades do projeto, batizado de Veja, eles conheceram o “chão de fábrica” de vários países e decidiram montar a sua cadeia produtiva no Brasil.

O produto escolhido foi o tênis, e sua composição já conta muito sobre o posicionamento da marca: as solas são produzidas com látex nativo da Amazônia, extraído por três associações de seringueiros, em acordo de Comércio Justo; o cabedal pode ser feito de algodão orgânico cultivado pela cooperativa agroecológica Esplar, no semiárido nordestino; ou, para alguns modelos, de couro curtido sem o uso de taninos contaminantes. Essas e outras informações são divulgadas no site da marca, seguindo o princípio de transparência.

O tênis se tornou um sucesso em multimarcas parisienses e a marca passou a ser vendida no Brasil em 2013, com o nome de VERT – verde, em francês. Hoje a empresa é considerada um case global, por ter a sustentabilidade no DNA e gerenciar um modelo de negócios ampla escala, que abrange pesquisa e desenvolvimento em novos materiais e colaborações de alto nível, como a recém-lançada, com o designer americano Rick Owens.

Os sócios da VERT, Sébastien e François. Foto: Divulgação Vert Shoes

O co-fundador da marca, François-Ghislain, foi entrevistado pela jornalista Carolina Poeys para o Roupartilhei, e contou um pouco sobre sua visão e estratégia. Confira o resultado da conversa:

/// Carol Poeys – Um dos pilares para uma moda mais sustentável é o Comércio Justo. Como fazem para balancear o pagamento de um preço máximo possível para os produtores sem aumentar muito o preço final do produto, de modo que seja um tênis acessível?

François-Ghislain Morillion – O segredo é não fazer publicidade, não temos orçamento para marketing. Nada de pagar para influenciadores, esportistas, estrelas: zero, a gente não anuncia. Não temos equipe de marketing na empresa. Quando se compra um tênis, normalmente, metade do custo é propaganda, então, imagina a economia que a gente faz. Se não, a gente teria uma marca de luxo considerando nosso preço de compra, 4 a 5 vezes mais, do que um tênis comprado na Ásia. E na loja ele chega ao preço da concorrência, às vezes uns 10% mais caro.

/// Nesse caso, foi bom para a VERT que a duquesa Meghan Markle tenha sido fotografada usando um par de tênis da marca, assistindo a uma competição esportiva com o príncipe Harry, na Austrália?
A gente não se deu muito conta do que aconteceu e, pra mim, não sei se é uma causa ou uma consequência. Eu acho que na Inglaterra a marca começou a crescer loucamente e pessoas da geração da Meghan começaram a usar o tênis, então ela usou, mas porque ela tem esse pensamento e não porque ela é princesa. Ela faz parte dessa geração que come melhor, faz yoga, enfim, é uma questão mais de comportamento e de consciência. Mas óbvio que foi muito bom para nós como empresa, ter o nosso projeto reconhecido, uma mídia espontânea. Mas a gente já tinha crescido muito na Inglaterra. Você vai para Londres, tem muita gente usando, até assusta um pouco.

/// Você que frequenta o Brasil e acompanha esse mercado há anos, tem percebido aqui uma demanda crescente? 
Sim, eu acho que tem uma questão geracional, e começou com a alimentação porque realmente teve uma mudança de paradigma. A agricultura orgânica tem crescido loucamente. O que o Oskar Metsavaht estava dizendo (em fala no Rio Ethical Fashion) faz muito sentido pra mim, porque tudo começou com uma relação mais íntima com o alimento, e quando se começa a entender mais, o processo migra para além da comida.

Últimos lançamentos da marca, que tem como prioridade a qualidade e procedência responsável do produto. Divulgação: veja-store.com

/// Como anda o uso do couro com curtimento à base de taninos vegetais pela Vert, e quais os futuros projetos com o material?
Hoje a gente está usando (couro curtido com) cromo em 95% da nossa produção. Só tem uma pequena parte da coleção que não usamos. A gente trabalhou sem durante anos, mas chegou em um momento que não dava mais porque não tinha mais oferta de couro sem cromo no mercado brasileiro, porque não tem mais ninguém comprando esse couro. Agora a gente relançou pois apareceu uma nova tecnologia de curtimento, que se chama “easy white”, de uma empresa alemã, e estamos começando o trabalho no Brasil com essa tecnologia mas só colocamos ainda em, mais ou menos 5% da coleção. É um teste, mas se der certo a gente vai migrar para esse couro. Nosso desejo é trabalhar sem cromo mas a realidade é que não estamos conseguindo.

/// A VERT possui pontos de venda em multimarcas em todo Brasil. Vocês pretendem abrir uma loja própria no país?
Não especificamente, mas a gente tem uma loja em um espaço colaborativo em São Paulo que se chama Backyard, onde a gente tem uma boa parte da coleção, digamos que a metade, muito mais modelos do que em uma loja multimarca, então, é quase nossa loja. A gente agora ampliou nosso escritório, que fica lá em cima. É um bar e uma loja também. No Rio a gente sonha em ter, mas a gente sempre cresce passo a passo. A gente não tá com pressa nenhuma, não temos um objetivo de lucratividade. Estamos indo de acordo com as oportunidades.

/// Sobre circularidade, tema pelo qual você foi chamado para participar do painel “Colaboração para o design circular” do Rio Ethical Fashion, no Oi Teatro Casa Grande. A VERT apresenta algum projeto de implementação de logística reversa com os tênis?
A gente tá no ponto 0 da história. Como a gente trabalhou muito na parte das cadeias produtivas, a gente talvez tenha esquecido um pouco dessa parte, e só agora estamos começando a discutir essa pauta, e como sempre queremos ir bem a fundo, mas nossa política é de não falar de projetos.

/// Vocês já pensaram em reverter um percentual da venda dos tênis para alguma causa, associada à cadeia produtiva da marca?
Não digo que a gente nunca vai fazer, inclusive, a gente já fez com a Surfrider Foundation, porque queríamos apoiar eles, então, criamos um tênis com a equipe deles, assinado por eles e 5% das vendas foi revertido para lá. Mas não é algo que a gente faz sempre, tentamos fazer isso dentro do produto. A nossa ideia é a gente tentar fazer com que cada passo diminua nosso impacto para que a gente não precise fazer caridade, vamos dizer assim. Essa é a nossa pegada. Tem uma empresa americana que faz sapatos baratos de produzir, e quando vendem um, doam um. Pra mim isso é coisa do passado. Eles tentam compensar, enquanto já deveriam estar produzindo um produto limpo. Não é que eu seja contra, porque já é melhor do que não fazer nada, só que não é a nossa ideia. 

/// O consumo consciente é essencial na proposta da moda sustentável. Como a empresa apoia essa prática?
O que a gente faz é controlar o crescimento. A gente não vende além do que a gente acha razoável e também em função da nossa limitação natural, que é o número de pessoas com quem a gente trabalha. Inclusive a gente acha que quanto mais borracha a gente compra, mais impacto positivo a gente gera na Amazônia. Se há uma revolução a se fazer, ela vai ser do consumo. Mas vamos ter que consumir menos porque a partir do momento que você tá consumindo, você tá destruindo alguma coisa, então uma sociedade não pode se definir por destruição, então, vamos ter que trocar consumismo pelo uso das coisas. Então você está usando um sapato, usando um tênis, mas eu não tenho respostas hoje para minha empresa para isso. Já têm práticas de aluguel como o Airbnb, e as novas gerações já estão mudando a relação com propriedade e consumo, é um movimento. 

/// A moda sustentável, na perspectiva de um novo paradigma para os negócios, enxerga o mercado como uma potencial rede de colaboração – mas no contexto do modelo atual, quem vocês consideram seus concorrentes? 
Eu acho que aqui no Brasil a Osklen é um bom concorrente. O tênis de lá é forte mas já foi mais também. A gente não tem concorrente nesse nicho, nossos concorrentes são as grandes marcas. Na verdade, a maioria das pessoas que compram nosso tênis, não compram porque ele é sustentável. A gente sabe disso e tudo bem, por isso que nossos concorrentes são as outras opções de tênis, não sustentáveis. Não é por isso que os clientes estão comprando a Vert, é porque eles gostam dos modelos, do design, das cores. A sustentabilidade vem como um complemento, uma alma.

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