Entenda os sistemas de certificação de cadeia produtiva da Abvtex, Instituto Alinha e Sistema B

Os selos, certificações e mecanismos de rastreabilidade são ferramentas que podem estimular mudanças positivas na cadeia produtiva da moda e escolhas informadas pelo consumidor, e serão cada vez mais valorizados, à medida em que a pauta da responsabilidade socioambiental ganha relevância.

Porém, se as certificações não forem divulgadas pelas marcas e compreendidas pelas pessoas, perde-se a chance de que o discurso se aprofunde, tornando-se apenas um novo status a ser consumido. Além disso, se os critérios de avaliação de fornecedores permanecem inflexíveis em contextos sociais, econômicos e culturais adversos, correm o risco de se tornarem burocracias limitantes ao desenvolvimento local.
Para estimular esse debate, compilei informações e conversei com representantes de três iniciativas que atestam a qualidade de práticas na cadeia produtiva de moda brasileira, e têm cumprido um papel importante para diferentes públicos.

São elas; o Selo ABVTEX, concedido a fornecedores de diversas categorias da cadeia de moda pelo programa de certificação da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex),  a TAG Alinha, aplicada às peças de roupas feitas por oficinas de costura assessoradas pelo Instituto Alinha, e o selo de Empresa B, fornecido pela iniciativa americana com sede no Brasil, Sistema B.

O que certificam e como funcionam

Abvtex
O programa de certificação Abvtex foi criado em 2010, com o objetivo de oferecer às marcas e grupos integrantes da associação, serviços de auditoria para que regras de compliance, muitas vezes básicas, segundo exige a legislação trabalhista, fossem cumpridas no ambiente de trabalho de fornecedores e seus subcontratados.

Home do site do Programa, com botão para acesso à área do varejista signatário, no canto à direita.

As empresas varejistas dos setores de vestuário, calçados, acessórios e “cama, mesa e banho”, ao aderirem ao Programa Abvtex, assinam o Termo de Compromisso de Certificação da Cadeia Produtiva, assumindo o compromisso de não adquirirem mercadorias de fornecedores que não sejam aprovados em auditorias gerenciadas pela associação. As auditorias buscam certificar que estes fornecedores estão atuando dentro da conformidade, não realizando as polêmicas “quarteirizações” em condições irregulares.

A Abvtex credencia cinco órgãos auditores independentes – ABNT, Bureau Veritas, DNV GL, Intertek e SGS, que realizam de 5 a 12 auditorias por dia, em 18 estados do Brasil, avaliando se os mais de 3.700 fornecedores cadastrados estão de acordo com 18 critérios de regularidade.

Conversa na sede da ABVTEX, em Perdizes, com o diretor executivo da associação, Edmundo Lima, e a gerente do Programa de Certificação, Angela Bozzon. Foto: Assessoria ABVTEX

Entre os critérios auditados, estão tópicos como a formalização da empresa, gestão de notas fiscais, validação da lista de subcontratados, normas ligadas a instalações físicas e jornada de trabalho, ocorrência de trabalho infantil, forçado ou análogo a escravo, registro dos trabalhadores, recolhimento de FGTS e INSS, políticas anti-discriminação, abuso e assédio. O restante dos critérios pode ser consultado aqui.

No setor têxtil, os auditores visitam facções e instalações de costura, corte, acabamento (passadoria, encabidamento, etiquetagem), bordado, transfer, tecelagem, beneficiamento, impressão (silk), malharia, tinturaria e fiação. As auditorias são feitas sem aviso prévio. A lista dos fornecedores certificados é disponibilizada no site, com nomes jurídicos e CNPJ.

Os fornecedores solicitam e pagam de forma autônoma a auditoria, com o objetivo de integrar a lista, com o custo de R$757,00 (meio período) ou R$1.514,67 (período inteiro), a depender do tamanho e número de funcionários na planta.

Após a aprovação de todos os seus fornecedores nacionais, a marca obtém o status “Pleno”, divulgado em área do site. Quando ingressa no Programa, cada marca tem o período de adequação da cadeia. Enquanto bota em prática um plano de ação com prazo definido, para adequações finais, seu status permanece como “Em Desenvolvimento”.

Hoje, aproximadamente 90 marcas como Ahlma, Farm, Reserva e Renner, são signatárias do Programa ABVTEX. Entre as associadas, apenas a Forever 21 não participa do programa de certificação, pois sua produção acontece fora do país.

Atualmente, o valor da mensalidade associativa é fixo em R$ 6 mil, e dá acesso à plataforma do programa, que fornece atualizações sobre a situação dos fornecedores e notificações sobre eventos e encontros. Há também comunicações internas facilitadas via grupos de WhatsApp.

Antes da entrevista à associação, no meu entendimento essa mensalidade já integrava os serviços de auditoria😵, mas na prática, o próprio fornecedor que se responsabiliza pelos valores cobrados, como explicado acima.

A mensalidade pouco acessível a microempresas do varejo, é, segundo a equipe, correspondente à ordem de grandeza da movimentação financeira dos grupos associados, de no mínimo R$100 milhões por ano. Soube na conversa que há um estudo para flexibilizar o valor, para empresas de menor porte, mas ainda sem previsão definida.

Instituto Alinha
O trabalho do Instituto Alinha tem similaridade com as auditorias da Abvtex, ao realizar avaliações em “chão de fábrica” para regularização de infra-estrutura, instalações elétricas, saúde e segurança do trabalho, junto a fornecedores. Porém, o “alinhamento” tem foco em oficinas de costura de pequeno a médio porte, em geral compostas por imigrantes em situação vulnerável.

O Instituto tem como objetivos gerar impacto social positivo por meio da assistência gratuita à essa mão-de-obra, promovendo conexões de mercado entre oficinas e marcas, e disseminando o conceito de transparência, através da TAG Alinha.

Modelo de trabalho do Instituto Alinha, com foco em criar conexões entre as três pontas; oficinas, marcas e consumidores.

As oficinas regularizadas podem ser encontradas por confecções e marcas, através de um banco de dados no site do Instituto, acessível por planos com valores semestrais ou anuais fixos, que variam de R$420,00 a R$920,00. A assinatura mais simples garante o acesso aos contatos das oficinas e também a um sistema de gerenciamento de produção de peças, apoiado na tecnologia blockchain, por meio da TAG.
Para entrarem no cadastro, as oficinas passam por uma avaliação do Instituto, e conforme a necessidade, recebem a consultoria, que dura de 3 a 6 meses. O acompanhamento leva em conta não só questões estruturais e legais, mas também a capacitação em empreendedorismo da(o) dona(o) da oficina, e as relações interpessoais da equipe.

Fotos de oficina que passou por processo de alinhamento para ser incluída no banco de contatos do Instituto. Print do site.

A metodologia de diagnóstico das oficinas e o passo a passo para o alinhamento foram desenvolvidos pela Alinha, e as oficinas são acompanhadas periodicamente, para que continuem na plataforma. Os custos desse acompanhamento são cobertos pelas assinaturas das marcas.

A TAG Alinha vêm presa às peças de roupas produzidas pelas oficinas alinhadas, e oferece o serviço de mapeamento da cadeia produtiva em questão, e compartilhamento de informações sobre os costureiros. O sistema funciona da seguinte forma: as marcas assinantes têm um perfil no site para lançar as informações técnicas sobre sua produção de roupas, e indicar qual das oficinas cadastradas na plataforma é responsável pela produção.

Foto da TAG Alinha, com o código para o consumidor digitar no site do Instituto e acessar a “história”da peça, pelo sistema blockchain. Foto: Divulgação Instituto Alinha.

Com as informações salvas, o sistema dispara uma mensagem para que os responsáveis das oficinas citadas confirmem, incluam o valor de pagamento recebido pela costura, e avaliem as condições de contratação oferecidas pela marca. Após as confirmações e contribuições de ambos os lados, as informações são enviadas e salvas em blockchain.

Esse histórico poderá ser consultado pelos consumidores, digitando no site um código de 6 dígitos. Além das informações que comunicam as condições justas de trabalho, o consumidor poderá conhecer um pouco da história dos donos da oficina/costureiros que produziram a peça.

Sistema B
Desde 2011 na América Latina e 2013 no Brasil, o Sistema B é responsável pelo engajamento, divulgação e promoção na América Latina, do movimento criado pela organização americana B Lab.

A iniciativa tem como objetivos certificar empresas com modelos de negócio de impacto, e compartilhar práticas através de publicações próprias, além de eventos e encontros que realiza para o fortalecimento de redes e modelos responsáveis de governança. O Sistema B encerrou 2018 com 140 empresas certificadas no Brasil, e 2.700 no mundo, integrantes do setor de moda, mas também áreas como construção civil e serviços comerciais.

Arte Sistema B

As marcas e iniciativas de moda brasileiras Movin, Rede Asta, Flavia Aranha e Insecta Shoes possuem o selo de “Empresa B”, assim como Patagonia, Toms, Allbirds e o ateliê de upcycling premium Elvis & Kresse, no exterior.

O processo para obter a certificação começa pelo preenchimento do formulário B Impact Assessment, composto por nada menos que 200 perguntas. Ali são levantadas questões sobre uso de matérias-primas ecológicas; contratação de fornecedores sob princípios do Comércio Justo; informações sobre terceirizados e presença de outras certificações. A ferramenta é gratuita e qualquer empresa pode mensurar o seu impacto através dela.

Tela de início para preenchimento do questionário “B Impact Assessment”.

Após o envio do formulário, caso a empresa alcance a pontuação mínima de 80, ela é convidada a enviar para a BLab os documentos que comprovem as ações mencionadas. Após o envio, caso não seja necessário mais nenhum esclarecimento, é marcado um call para entrevista com representante da marca. Uma particularidade da metodologia, é que a empresa aprovada deve incluir em seu contrato social, um parágrafo relacionado ao “código de ética” de uma Empresa B, institucionalizando o seu compromisso.

O conteúdo do parágrafo está baseado nas seguintes diretrizes: comprometimento em gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente; ampliar deveres de acionistas e gestores para incluir questões e impactos socioambientais nas tomadas de decisões; comprometer-se a operar com altos padrões de gestão e transparência; usar os negócios para a construção de uma economia mais resiliente, inclusiva e compartilhada; compartilhar boas práticas e atrair profissionais que busquem empresas com propósito.

A taxa anual cobrada varia de acordo com o faturamento da empresa, e parte de US$50,00, para empresas com faturamento de até US$150.000,00. A cada 3 anos a Empresa B deve passar pelo processo de “recertificação”.

Articulação social e desafios
Além da operação de rotina, as três iniciativas estão ligadas a outros projetos e parcerias que potencializam o seu alcance. Seus representantes participam frequentemente de debates e rodas de conversa, onde compartilham tanto os sucessos, como dificuldades a serem superadas na execução dos trabalhos.

Ao gerenciar um sistema de ampla escala, a Abvtex lida com o desafio de que as auditorias se baseiam em uma “fotografia” do dia em que o fornecedor foi visitado – o que acontece, em média, cerca de uma vez ao ano. Assim, segundo Edmundo Lima, diretor executivo da associação, a lista se mantém atualizada com o apoio de uma rede de relacionamento, composta por auditores e equipes de Responsabilidade Social Corporativa das próprias marcas certificadas:

“Se uma varejista for em visita e constar irregularidade em determinado fornecedor, automaticamente ela avisa aos demais pela plataforma de gestão do Programa e outros canais de comunicação estabelecidos pela ABVTEX, como e-mail e WhatsApp”. Denúncias por parte de funcionários também são computadas, assim como flagrantes feitos pelo Ministério Público do Trabalho.

Lima explica que essa prática de “responsabilização solidária” fortalece a associação: “Dentro de uma cadeia de valor, todos os elos são corresponsáveis pelas práticas trabalhistas adotadas e se responsabilizam solidariamente a qualquer falta de algum dos elos.” Vale destacar que a Abvtex, com o monitoramento, complementa o serviço de fiscalização realizado pelos Órgãos Governamentais – que geralmente atuam com déficit no número de auditores fiscais e orçamento reduzido.

Lima explica que são realizados encontros entre as empresas signatárias, para a troca sobre boas práticas: “As discussões são frequentes: tanto em grupos de Whats App com representantes dos varejistas, como em encontros mensais do GT Fornecedores; trimestrais do Comitê Gestor, e semestrais, do Conselho Consultivo.”

Em tempos de pleno crescimento do Fashion Revolution, movimento que a associação foi apoiadora no projeto do Índice de Transparência da Moda Brasil, Lima responde sobre a possibilidade de consumidores interessados visitarem os backstages das marcas, com mediação da Abvtex: “Consideramos avaliar propostas para mediar que consumidores das marcas signatárias, possam realizar visitas guiadas aos fornecedores certificados.”

Em relação a articulações para evoluírem questões legislativas, Lima explica que há um projeto com fins normativos em andamento, para a redução de níveis de toxicidade na cadeia produtiva, estruturado junto à organização internacional ZDHC (Zero Discharge of Hazardous Chemicals). “A ABVTEX vem atuando na criação de Norma Brasileira para a utilização de substâncias químicas na produção de têxteis. É um trabalho desenvolvido em conjunto à ABIT, ABIQUIM e ABNT. Estamos em fase final de elaboração das normas com a expectativa que sejam publicadas em breve”.

A associação também integra e marca presença em reuniões ordinárias de iniciativas como InPacto, COMTRAE-SP, e COETRAE, órgãos que visam mitigar o trabalho escravo, e integrou em 2018 os projetos Laboratório de Moda Sustentável, Valor em Cadeia e Parceria Público Privada (PPP), com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Momento do ciclo de encontros promovido no projeto “Laboratório de Moda Sustentável”, produzido pela ABVTEX. Foto: Assessoria ABVTEX

O PPP teve foco em melhorar a situação de empregados latinoamericanos, contemplando 30 oficinas de costura na região metropolitana de São Paulo, e foi financiado pelo Instituto C&A, Instituto Renner e ZARA. Enquadrado como uma ação de “política multissetorial”, o projeto também teve a participação do Instituto Alinha. “Acreditamos que o engajamento em projetos como esse seja essencial para a transformação da moda”, disse Dari Santos, cofundadora do Instituto.

Sobre essas relações do Instituto, ela explica que a TAG Alinha foi criada por conta de “uma demanda dos consumidores em saber quais peças foram feitas com trabalho justo”. Segundo Dari, várias oficinas são encaminhadas ao banco de dados da Alinha após seus gestores concluírem o curso “Jornada Empreendedora para Donos de Oficina de Costura”, promovido pela parceria do instituto com a Aliança Empreendedora e outras ONG’s.

Quanto às articulações do Sistema B, a interação entre a rede de Empresas B é facilitada através de eventos como o “Papo+B”, “Encontro de Empresas B Brasil” e “Encontro+B América Latina”. O Sistema B participa também da Enimpacto, que atua na promoção de um ambiente institucional e normativo favorável aos negócios e investimentos de impacto; e do chamado “Grupo Jurídico B”, que estrutura dentro da chamada “Academia B”, ações de influência em políticas públicas, promovendo o conhecimento sobre mudanças institucionais e outros temas de interesse da rede.

Encontro de líderes de empresas certificadas B, com atividade ao ar livre. Divulgação: Sistema B

Marcela Mizuguchi, facilitadora da certificação, comenta o maior desafio interno do “Movimento B”: “ampliarmos alcance e reconhecimento com consumidores, e influenciarmos grandes empresas, como por exemplo a Danone, que já certificou suas operações em países como França, EUA e Argentina e assumiu publicamente o desafio de ter 100% das suas operações globais certificadas até 2020”.  

No caminho rumo ao aperfeiçoamento de processos, todas as iniciativas enfrentam desafios particulares. No caso da Abvtex, ao representar um sistema amplo, lida com críticas, como por exemplo, por aplicar uma metodologia de aprovação de fornecedores que inviabilizaria o trabalho de microempreendedores – como costureiras autônomas – que não possuem estrutura suficiente para se formalizarem na lista (nem mesmo contam com o apoio das empresas contratantes), e por isso perdem seus contratos com marcas que não detém protocolos próprios para este tipo de contratação.

Outras exigências dos critérios também geram discussão, como por exemplo a reforma em instalações de banheiros para que tenham divisão feminina e masculina  – dificultando a aprovação de oficinas já consideradas organizadas. O fato de que os auditores têm restrições para entrar em comunidades tidas como “áreas de risco”, também representa outro desafio para a aprovação de oficinas instaladas nessas áreas.

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