Cradle to Cradle é a nova Bauhaus

Texto originalmente publicado no portal FFW/UOL

Foi na década de 1980, quando fazia parte da equipe ativista do Greenpeace, que o químico  alemão Michael Braungart se convenceu de que protestos não seriam o suficiente para tornar o mundo livre de poluentes tóxicos. Era necessário desenvolver um novo modelo para a indústria – e foi o que ele fez quando lançou em 2002, o livro “Cradle to Cradle”, em coautoria com o arquiteto americano William McDonough.

Na tradução, “Do berço ao berço”, o conceito é inspirado nos fluxos da natureza, onde os resíduos viram nutrientes, e alimentam ciclos sucessivos que garantem a sobrevivência das espécies. E na melhor das hipóteses, ainda prestam serviços de melhoria à qualidade de vida das pessoas – como é o caso das árvores.

Na prática, a ideia é desenvolver produtos, sejam eles roupas ou navios, com materiais ecológicos, que ao final de seu ciclo de uso, aluguel ou compartilhamento, possam ser facilmente desmontados, reciclados ou devolvidos à terra.

Foto de divulgação da biblioteca de materiais para a moda, Fashion Positive, associada à certificação Cradle to Cradle. Imagem: Divulgação

Em relação à durabilidade dos produtos, a premissa é de que quanto mais usarmos serviços de compartilhamento, os produtos serão produzidos com maior qualidade. O mindset deixa claro que o nosso atual sistema linear, onde os materiais vão “do berço à cova”, tem sérios problemas de design. As ideias do Cradle to Cradle são também base conceitual para a Economia Circular, que tem hoje a fundação inglesa Ellen MacArthur como principal porta-voz.

Em visita ao Brasil agora em março, o Prof. Dr. Michael Braungart explicou às plateias da Casa Firjan, no Rio de Janeiro, e do evento Green Nation, em São Paulo, a importância de separarmos os materiais em dois grandes ciclos, um biológico e outro técnico. Dessa forma, evita-se o downcycling – processo que resulta na perda de qualidade dos materiais, e inviabiliza que sejam reciclados. Nessa perspectiva, tecidos mistos como o algodão com elastano das calças jeans, e até mesmo as soluções de reciclagem têxtil, que unem retalhos de algodão virgem a fibras de poliéster, deveriam acabar.

Michael disse que os R’s da sustentabilidade (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) já estão ultrapassados e contou à plateia que encontrou dentro de um pássaro, mais de 400 tipos de plástico – sendo isso um sinal de que apenas reduzir não é suficiente. “Se reduzirmos o tamanho da embalagem, não significa que ela se tornou boa. Depois de 40 anos de discussão ambiental, vamos falar em termos de inovação, qualidade e beleza? Um produto que vira lixo não é bonito”.

Com um discurso rico em dados de impacto ambiental – como o das cinco mil fraldas que um bebê consome ao longo de sua vida, e o fato de apenas nove entre os cerca de 41 elementos que compõe um telefone celular, estarem sendo reciclados – Michael também fez algumas piadas, uma delas com o nome do evento onde palestrava em São Paulo: “No momento não somos uma Green Nation, pois na verdade o que estamos fazendo é “Cremation”, enterrando e inutilizando recursos.” Em outro momento, comentou que o presidente americano Donald Trump “pelo menos é sincero ao dizer que não se importa com o meio ambiente, ao contrário dos políticos europeus, que apenas enganam”.

Ele também fez comentários em relação ao cenário político no Brasil – “Sei que agora a situação política é crítica no Brasil” – e convidou estudantes interessados a estudar o Cradle to Cradle na Alemanha: “Se vocês não estão satisfeitos, venham trabalhar nas universidades como cientista convidado. Se vocês quiserem se conectar, não é difícil. Você pode fazer o seu PhD comigo, venha!”. Michael comentou ainda a falta de saneamento no Rio de Janeiro: “É um desastre, e esse esgoto deveria estar há muito tempo tornando-se recurso para outros ciclos acontecerem.”

Certificação e consultoria com influência global

O primeiro slide da palestra dizia “Cradle to Cradle: a nova Bauhaus”, como se fosse o título da palestra (na realidade divulgada como “Design para a Abundância”). A comparação com a disruptiva escola alemã de arquitetura, da década de 1950, não parece tão ambiciosa para uma iniciativa que tornou-se um sofisticado instituto de inovação, que certifica produtos de empresas como C&A, Puma e Stella McCartney, e influencia designers no mundo todo. Ter o selo “C2C”  em um linha de produtos, hoje, é sinônimo de modernidade e vanguarda industrial.

Foto da campanha da C&A com as camisetas produzidas segundo os critérios C2C de circularidade. Imagem: Divulgação C&A

“Qualquer designer que queira ter orgulho do que faz, e não deseja criar lixo tóxico, desenha segundo o Cradle to Cradle”, disse o químico, que também é CEO do instituto de pesquisas científicas em biologia e química ambiental, EPEA (Environmental Protection Encouragement Agency), e sócio de William McDonough na empresa de consultoria MBDC – McDonough Braungart Design Chemistry, que acompanha empresas como a Nike e Phillips, no desenvolvimento de produtos com expertise em design para a desmontagem e extensão de ciclo de vida. Aqui no Brasil, o EPEA, é representado pelo escritório paulistano de design Flock, que trabalha com design circular e desenho de produtos em diferentes projetos.

O certificado C2C leva em conta seis critérios de avaliação: saúde dos materiais, potencial de reciclagem, uso de energias renováveis, emissões atmosféricas, consumo de água e justiça social. Os produtos ou materiais podem receber pontuações nos níveis básico, bronze, prata, ouro e platina. A iniciativa também possui um braço de certificação totalmente focado em moda, o Fashion Positive. O site funciona como uma biblioteca de fios, tecidos, tingimentos, aviamentos e peças de roupa feitos de materiais orgânicos, biodegradáveis e de baixo impacto.

Na lógica circular, os materiais de alto valor agregado poderão ter “passaportes”, ou um ID, que identifiquem a sua composição exata, de onde vieram e para onde continuarão a viajar. Bancos de materiais poderão gerenciar essas “transações”, ou mesmo órgãos dos próprios governos.

Segundo ele, a exploração de recursos naturais, especialmente metais escassos como o cobre, deveria cessar. Os países poderiam alugar esses recursos como serviços, na forma de componentes industriais ou diluídos, e acabar com um sistema que “privatiza os lucros e socializa os riscos”.

De volta à palestra, quando perguntado sobre o uso de roupas de segunda-mão como uma opção para os problemas da indústria da moda, Michael respondeu: “Eu tenho dois irmãos mais velhos e sempre tive que usar as roupas usadas deles, mas tenho que dizer que odeio usar roupas com tecidos antiquados. Muitas marcas já estão fazendo um excelente trabalho na pesquisa de materiais eficazes. Adoro a moda e reconheço o valor que ela oferece ao permitir que as pessoas se expressem e sejam mais felizes.”

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Gabriela Machado André é jornalista especializada em Comunicação e Educação Ambiental pela IUSC-Barcelona, e Comunicação e Marketing de Moda pelo IED-SP. Criou em 2016 o blog Roupartilhei/@roupartilhei, onde escreve sobre o cenário e inovações na área de moda e sustentabilidade. Oferece o workshop “Comunica-ação para a Moda Consciente” e consultorias estratégicas e de conteúdo para iniciativas na área. Integrou em 2018 a equipe do projeto Índice de Transparência da Moda Fashion Revolution, e atualmente é parte da equipe do Instituto Ecotece.

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