Quem fez minhas roupas? Entrevista com Carry Somers cofundadora do Fashion Revolution

Durante a semana de lançamento do Índice de Transparência da Moda Brasil, em outubro, tive a oportunidade de acompanhar a cofundadora do movimento Fashion Revolution, Carry Somers, que veio para palestrar no evento, em um “tour” por algumas iniciativas de moda sustentável aqui de São Paulo. Entre uma visita e outra, consegui fazer uma entrevista de quinze minutos com ela, e o resultado coloco aqui embaixo.

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Visitando o atelier de tingimento natural Aiginska, da Marina Stuginski. Foto: Arquivo Roupartilhei

Carry é inglesa e co-fundou em 2013 o Fashion Revolution Day, junto com a estilista, também inglesa, Orsola de Castro. Antes disso, ambas integravam o cenário da moda europeia, com suas respectivas marcas, já preocupadas com responsabilidade social, rastreamento de cadeia produtiva, reuso de materiais e redução de impacto ambiental. A Carry gerenciava a Pacha Cuti, e a Orsola a From Somewhere. Ambas interromperam as marcas para se dedicarem full time ao movimento. Veja a conversa:

Carry, poderia contar como surgiu a ideia de criar o movimento, após a tragédia do Rana Plaza?
Certamente minha intenção não foi a de criar um movimento social. Inicialmente a ideia era fazer algo no aniversário do Rana Plaza, não foi exatamente para trazer consciência ao acidente, pois isto foi apenas alguns dias após o evento. Muitas pessoas tinham visto sobre o acidente pela televisão e estavam impactadas. A ideia foi no sentido de “como podemos nos certificar que essa consciência não desapareça?”. Quando a ideia veio a mim, sabia que eu deveria agir de alguma forma.

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Carry junto às artesãs de sua marca, a PachaCuti, especializada em chapéus Panamá. Foto: Viva NZ

Você considera que nesse momento “ouviu a sua intuição”?
Não diria que foi uma questão apenas de ouvir a intuição, mas agir em cima disso. Eu estava em minha casa tomando um banho no domingo a noite, e poderia apenas achar que era uma boa ideia e continuar em meu banho. Foi como uma intenção empreendedora, de agir em cima da ideia, se você acha que ela é boa.

Como você conheceu sua parceira na construção da ideia, Orsola de Castro?
Eu conhecia a Orsola pela London Fashion Week, mas não eramos muito próximas. Entretanto ela me pareceu a pessoa certa para conversar a respeito da ideia, pois ela era reconhecida no lado ambiental da indústria, por ser uma pioneira, e eu era conhecida como pioneira no lado social e de direitos humanos. Ela me pareceu a pessoa mais óbvia para conversar a respeito. Conversei com ela quatro ou cinco dias após o colapso do Rana Plaza.

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Durante o evento de lançamento do Índice de Transparência da Moda Brasil. Foto: Igor Arthuzo

Você imaginava que o movimento se transformaria em uma semana global de eventos?
Não esperávamos que o Fashion Revolution se tornasse um movimento, mas apenas um evento de um dia. O movimento cresceu com pessoas ouvindo a respeito e perguntando se poderiam replicar nos Estados Unidos, Australia, Bangladesh, India, etc. Ele cresceu naturalmente e não tivemos que fazer muito nesse sentido.

Qual é a abrangência do movimento hoje?

O movimento chegou a mais de 100 países. Nem todos os núcleos são tão ativos, ou ativos o ano inteiro. Nesse sentido, temos o Brasil que é muito ativo em outros períodos além da Fashion Revolution Week, assim como Australia, India e outros países latinoamericanos.

Como aconteceu para a transparência tornar-se o principal pilar do movimento?

Sabíamos desde o início que tínhamos que abordar sobre transparência. Isso ficou muito claro quando vimos os representantes das marcas procurando as etiquetas nos escombros, pois eles realmente não sabiam se tinham alguma relação com aquela fábrica. Sabíamos que teríamos que lançar a transparência em primeiro lugar pois não se pode pensar em questões de saúde, trabalho infantil segurança, direitos trabalhistas e ambientais, se você não pode ver a raiz do problema. O termo surgiu em nosso primeiro encontro, quando tínhamos alguns amigos reunidos, e eu e Orsola já tínhamos trocado alguns emails a respeito. A ideia de mostrar a etiqueta da marca e perguntar #quemfezminhasroupas também surgiu logo nesse início.

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Com Gerfried e Natasha, fundadores da Pano Social, durante visita ao showroom da marca. Foto: Arquivo Roupartilhei

Porque, em sua opinião, o movimento cresceu tanto e tão rapidamente?

Muitas pessoas viram aquele desastre na televisão e se sentiram desempoderadas, elas queriam fazer algo a respeito, elas sabiam que isso teria que iniciar uma mudança na indústria, e nós oferecemos ferramentas para elas fazerem algo. Também acho que por termos vindo de um background da moda e não do ativismo, não estimulamos que as pessoas se acorrentem em forma de protesto, queremos ser positivos e inclusivos. Essas palavras também estiveram desde o primeiro encontro – sermos um movimento inclusivo e positivo. Queremos mostrar boas práticas e incentivar que as marcas melhorem.

O que você sente quando vê tantas postagens e questionamentos sendo feitos por apoiadores do movimento (durante a Semana FR desse ano, 2.678 pessoas postaram no Brasil, com as principais hashtags do movimento)?

É muito incrível, o movimento ganhou vida própria e importância, e nós estamos começando a ver mudanças e o resultado de nossa influência sobre as marcas. Há marcas se tornando mais transparentes e isso é o mais animador. Eu realmente espero que as pessoas continuem postando para as marcas verem como temos credibilidade e estamos sendo efetivos.

Fale um pouco sobre a estratégia de mídias sociais e a comunicação visual – tão autêntica – do movimento?

O formato digital nos pareceu óbvio pois não tínhamos nenhum dinheiro. No primeiro ano da campanha já tivemos 62 países envolvidos, e tudo foi financiado por um empréstimo de 5 mil libras que fiz ao movimento, para custear um website, um shooting de fotos e outros materiais. Muito da comunicação visual foi criada pela Heather Knight (designer e responsável pelo branding do FR) e eu. Ela veio com a fonte para usarmos, por exemplo. A Orsola, que é a diretora criativa, também tem uma enorme parte no “look and feel” de tudo.

Como é hoje o relacionamento do Fashion Revolution com as semanas de moda tradicionais?

Temos um bom relacionamento com as fashion weeks. Já falei em semanas de moda como a de Lisboa e irei falar esse ano na Beijing Fashion Week. Muitas FW, especialmente as menores, estão começando a incorporar a sustentabilidade e tem nos convidado para falarmos sobre o movimento. Temos uma relação muito boa com o British Fashion Council (orgão representativo da moda britânica), por exemplo.

Qual é o principal público de interesse do movimento? 

Consumidores e marcas devem trabalhar ativamente em sincronismo. Os consumidores pressionando as marcas, e as marcas pressionando os donos de fábricas para que entreguem melhores condições a seus trabalhadores, mostrando fotos das pessoas fazendo suas roupas. Dessa forma os consumidores saberão que sua pressão está fazendo efeito. A coisa deve acontecer como um ciclo virtuoso. Incluindo também políticos para efetuarem mudanças em políticas públicas. Tem que ser “todos” fazendo  a sua parte.

O movimento nasceu com foco principal em abordar sobre condições de trabalho na indústria têxtil, mas hoje também direciona energia para abordar as questões ambientais. Poderia comentar sobre a questão ambiental?

Estamos focando mais no lado ambiental nos dias atuais. Fizemos uma parceria com o Greenpeace para a campanha #MakeSomethingWeek, e já realizamos a segunda parceria esse ano. Nosso segundo fanzine teve o tema “Loved Clothes Last”, que tratou de estimular o cuidado às roupas e fornecer dados sobre o impacto ambiental que elas têm. Já o terceiro fanzine fala sobre biodiversidade, mudanças climáticas e efluentes. Nós certamente trabalhamos a parte ambiental e o impacto que a indústria tem na natureza.

Poderia comentar sobre o suporte financeiro dado ao movimento pela Fundação C&A?

A C&A tem sido muito incrível em seu suporte. É uma grande atitude da parte deles nos apoiar desde o nosso segundo ano, pois nesse momento éramos um entidade ainda desconhecida. Poderia ser apenas um tiro no escuro para eles, mas eles fizeram sua aposta e acreditaram na gente. Eu espero que essa confiança tenha um retorno à altura, e nos tornemos um movimento com cada vez mais credibilidade. Sem o suporte deles não estaríamos aonde chegamos hoje.

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