Índice de Transparência da Moda Brasil: um relatório para nos empoderar

Acabo de ler o PDF da primeira edição brasileira do “Índice de Transparência da Moda Brasil”, que foi lançado na última semana, com a análise e pontuação de vinte grandes marcas e varejistas de moda bastante familiares a todos nós, segundo o quanto estão comunicando sobre sua gestão e cadeias produtivas.

O projeto é uma super conquista para o movimento Fashion Revolution Brasil, que acaba de se tornar um Instituto. A pesquisa foi realizada em parceria ao núcleo global do movimento, parceria técnica com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces), e parceria institucional à Abvtex e Abit. O projeto foi financiado pelo Instituto C&A (braço focado em responsabilidade socioambiental da varejista, composto por uma equipe voltada exclusivamente à pesquisa e desenvolvimento nessa área).

 

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Crédito das artes gráficas contidas no post: Divulgação Índice de Transparência da Moda Brasil / Fashion Revolution Brasil

Uma das conclusões mais chamativas da análise foi o fato de que oito das vinte marcas não estão divulgando absolutamente nada em relação aos critérios avaliados, e por isso pontuaram zero (Brooksfield, Cia Marítima, Ellus, John John, Le Lis Blanc Deux, Olympikus, Moleca e Melissa). Fiquei bastante surpresa com a presença da Melissa nessa lista “opaca”, levando em conta sua abertura e investimentos enormes em comunicação multiplataforma com o público, nas últimas décadas.

Mesmo vulnerável em relação ao uso do plástico não-renovável como principal modelo de negócios (até quando a marca vai viver os seus plastic dreams?), havia espaço para a divulgação de dezenas de indicadores de responsabilidade, como as cinco sessões do relatório sugerem. Em oposição às oito não-transparentes, as quatro marcas analisadas na última edição estrangeira do Índice, lançada em abril (Pernambucanas, Renner, C&A e Zara), e também presentes no Índice brasileiro, tiveram crescimento em suas pontuações, mostrando o potencial de estímulo do projeto. Veja abaixo as marcas analisadas e suas colocações finais:

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A pontuação teve como base as informações disponibilizadas em canais como sites próprios e de fornecedores parceiros, e relatórios de responsabilidade social corporativa, ou de sustentabilidade; além de um questionário com quase 200 perguntas, enviado aos representantes das marcas, com o objetivo de estimular um processo participativo.

No início do projeto foi enviada uma carta-comunicado às equipes de marketing, comunicação, compliance, sustentabilidade ou gerência geral das marcas, para que estas estivessem cientes que seus dados públicos passariam por uma análise. No decorrer dos cerca de seis meses de desenvolvimento do projeto, os representantes foram convidados para dois encontros presenciais (kick-off de apresentação, e workshop para tirar dúvidas sobre a metodologia e questionário, com a presença da gestora global do projeto, Sarah Ditty) e um encontro virtual (webinar com Sarah Ditty, para apresentação de metodologia de análise).

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Equipe do projeto durante Workshop com representantes das marcas analisadas. Foto: Divulgação Fashion Revolution

As marcas foram selecionadas de acordo com critérios de diversidade setorial, e representatividade no segmento de atuação, e avaliadas em cinco diferentes seções, cada uma representando um peso de pontos específico. Seguem algumas conclusões que me chamaram a atenção em cada uma delas:

 

“Políticas e Compromissos”

Achei interessante que nessa seção as marcas pontuam por publicar o escopo de uma política interna (ex: direitos sobre licença parental e intervalos para descanso), e pontuam separadamente caso comuniquem como ela foi colocada em prática – e nesse segundo caso os resultados em geral caem pela metade!

Outro ponto interessante é que as 12 marcas têm em comum a divulgação de política sobre as questões de trabalho forçado ou análogo a escravo e infantil, mas apenas 2 marcas publicam políticas sobre o uso eficiente de energia e emissões de carbono (nem mesmo a Osklen, que já tem o projeto e-traces de rastreamento de impacto de algumas matérias-primas, pontuou nessa), e apenas 3 publicam um relatório anual de sustentabilidade ou de responsabilidade social auditado ou verificado por um terceiro independente.
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Duas suposições para esse resultado são que, pelo Fashion Revolution ser muito conhecido por questionar a ocorrência de trabalho escravo na cadeia têxtil, as marcas “correram” para publicar suas políticas a respeito, durante o processo de levantamento do Índice, ou que, as questões relacionadas à eficiência energética ainda são consideradas “sofisticadas” e distantes para o nosso setor varejista de moda.

O único ponto que a Ellus conquistou em toda a análise foi nessa seção, e foi relativo a associação com esse mutirão de limpeza de praias aqui. Ellus, explica mais pra gente sobre como aconteceu esse apoio!

“Governança”

Essa seção avalia a disponibilidade de telefones e emails de contatos das equipes da marca e suas respectivas práticas de compras. Um dos achados é que apenas 10 marcas divulgam o nome/cargo de pessoa ou equipe dos setores de sustentabilidade ou responsabilidade social. No ranking total de pontos há uma “virada de jogo” em relação à seção anterior: a Osklen que obteve 44 pontos, só pontuou 8% nessa (e a marca é uma das mais enxutas entre as analisadas), e a Animale e Farm sobem dos 29% para os 69%.

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“Rastreabilidade”

A seção levou em conta a busca de listas de fornecedores em três níveis, que acho interessante destacar aqui: o nível 1 indica as instalações com as quais as marcas têm um relacionamento direto e que normalmente fazem o corte, a costura e os acabamentos finais dos produtos. O nível 2 indica instalações de processamento e beneficiamento, como por exemplo, descaroçamento e fiação, passando por subcontratados, tinturarias, lavanderias, processos úmidos, bordados, estamparia e acabamentos dos tecidos. E o último e terceiro nível, analisa se as marcas estão divulgando fornecedores de substâncias primárias, como fibras, peles, borracha, corantes e metais – geralmente associados à fazendas.

Essa seção é considerada a mais complexa e importante de toda a análise, e nela a Malwee ficou isolada na frente com 71%, enquanto a Animale, Pernambucanas e Riachuelo caíram para os 0% (grave, pois todas as três possuem histórico de denúncias em relação a trabalho análogo ao escravo).
fornecedores

A Havaianas, Malwee e Osklen foram as únicas que disponibilizaram alguma informação sobre  fornecedores no nível 3. Já a C&A, Malwee, Renner e Zara divulgaram que estão rastreando uma ou mais matérias-primas a partir de certificações externas (No caso de C&A e Renner, a partir dos dados fornecidos pela Better Cotton Initiative). Nenhuma inclui a porcentagem de trabalhadores migrantes ou com contrato temporário. Achei interessante a informação de que “há debates surgindo em torno da sensibilidade de divulgar fazendas, que em situações de agricultura familiar, podem ser tanto o local de trabalho, quanto a casa de alguém.”

“Conhecer, Comunicar e Resolver”

Essa seção guarda uma certa sabedoria em relação à transparência, que é mostrar que você errou e está buscando consertar esse erro. Como no Brasil praticamente não temos ainda essa cultura, a seção  foi o “calcanhar de aquiles” para todas as marcas: a maior concentração pontuou na faixa de 11-20% e nenhuma pontuou acima de 30% do total possível. 

Em resumo, as marcas divulgam que realizam processos de avaliação de fornecedores e critérios para assumir novas instalações antes de começar a produzir, mas não publicam sobre as descobertas dessas avaliações ou a descrição e status de processos de remediação, caso algum problema tenha sido encontrado.

Ou seja, elas publicam que estão atentas a possíveis falhas, mas não comunicam a falha encontrada e suas metas para mitigá-la, e nem se já resolveram algo encontrado anteriormente. 

“Tópicos em Destaque”.

Nesse ano, os tópicos em destaque escolhidos foram ações mais específicas relacionadas a Mulheres, Trabalhadores e Resíduos. Dou destaque para os seguintes dados de meu interesse cotidiano: os fatos de que nenhuma marca anuncia serviços de conserto para ajudar a prolongar a vida útil dos produtos (oportunidade!), 40% das marcas divulgam o que acontece com os resíduos pré-consumo (ex.: lotes com defeito, excedentes, materiais rejeitados que podem – e devem – ser facilitados à marcas de upcycling!.), apenas 10% das marcas divulgam o que acontece com o excedente pós-produção (ex.: estoque não vendido e/ou com defeito, etc. Polêmico pois o drama da incineração está aí) e 35% das marcas e varejistas divulgam investimentos em recursos e tecnologias circulares, com o objetivo de reduzir o consumo de recursos naturais (já temos um começo!).

Quanto às pontuações, me surpreendi que a Osklen atingiu apenas 7% numa seção com critérios super contemporâneos; ficando muito distante da marca à sua frente, a Animale, que alcançou 20%.

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Insights finais

Como objetivo geral, o projeto propaga que a transparência – um valor ainda pouco conhecido e falado por empresários e consumidores brasileiros – é o primeiro passo para uma mudança ampla e sistêmica, começando pelo incentivo à prestação de contas no setor da moda, por parte dos consumidores, ONG’s, setor privado e público. Há no final do PDF, listinhas de sugestões bem interessantes sobre como cada esfera pode incentivar e cobrar transparência. 

Achei importante a observação feita pela equipe, em relação à responsabilidade do governo, sobre exigirem legalmente que as marcas e varejistas divulguem listas de fornecedores e informações gerais usando uma estrutura comum. Segundo o relatório, sem isso as empresas continuarão publicando “por boa vontade apenas informações selecionadas e no formato que desejarem”. 

Outro objetivo geral do projeto é que os resultados possam ser comparados ao longo dos anos, mensurando a evolução das marcas – e já há boas expectativas que a segunda edição aconteça. Para finalizar, não esqueça de baixar o relatório e indicá-lo, contribuindo para que essa próxima edição aconteça! 

Fica a dica também para postarmos no Instagram, questionando e tagueando as marcas que desejaríamos ver um melhor rendimento no Índice 😉

#transparenciaimporta!

Beijos!

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