Depoimentos do super talk “Transparência: um valor para a moda e para o mundo”

Ontem tive a chance de ver a live do talk “Transparência: Um novo Valor para a Moda e para o Mundo” que a Folha de São Paulo e o Instituto Ashoka organizaram, e anotei diversos depoimentos.  No evento aconteceram duas rodas de conversa, e acompanhei apenas a primeira – como rendeu muito, resolvi trazer os insights aqui para o blog.

talk

O bate-papo começou pelo Leonardo Marques, professor de sustentabilidade da COPPEAD-UFRJ que comentou o desafio das empresas de moda em visualizar os próprios problemas em sua rede de fornecedores, estando em um setor tão pulverizado, em cascata, cheio de terceirizações. Ele sugeriu que tecnologia possa cooperar na aplicação de mecanismos e metodologias (como por exemplo, questionários e auditorias), para promover essa visibilidade. Segundo ele, a construção de visibilidade e “formalização de estruturas” deve ser complementar à prática da transparência.

Ele comentou que as condições praticadas no Rana Plaza estavam invisíveis à sociedade, e a tecnologia pode contribuir para que, esses diferentes mundos dos elos do ciclo da moda, “coexistam”. Em relação às ferramentas de tecnologia, ele citou o uso de Block Chain e QR Codes para que haja um fluxo de informações mais eficiente através da cadeia, e de que essas inovações demandarão “investimento e coragem” das empresas.

Ele citou um argumento super relevante, de que o tema da alimentação sensibiliza mais pois está relacionado à saúde da própria pessoa, e que, colocando em paralelo, a roupa barata representa um “efeito colateral indireto”. 

A Elô Artuso, diretora educacional do Fashion Revolution e gestora do projeto do Índice de Transparência da Moda (que será lançado em outubro!), explicou que o relatório vai categorizar o quanto as marcas estão comunicando a seu público sobre suas políticas, compromissos e governança, segundo uma avaliação baseada em cinco critérios. Ela falou sobre a importância do Índice como uma ferramenta para reconhecer padrões de comportamento do mercado da moda ao longo dos tempo, em relação à práticas de sustentabilidade.

Ela destacou que o relatório brasileiro será útil sob a perspectiva de todos os setores da sociedade: consumidores, sindicatos e ONG’s, setores público e privado e as próprias marcas – tendo como objetivo constituir uma alavanca de melhorias entre todos esses atores.

Ela comentou sobre o comportamento de consumo indo na direção do maior interesse em sabermos a origem de nossas peças, e destacou a importância da rastreabilidade de fornecedores (indo dos níveis mais básicos de cultivo e manufatura, aos processos de acabamentos e confecção), para que o consumidor faça escolhas ainda mais informadas e conscientes.

Ela falou sobre a importância das marcas em gerarem informação “crível” e de qualidade, demonstrando em maiores detalhes que a prática não tem apenas a finalidade de marketing – e comentou a importância da geração de mais dados brasileiros sobre a evolução nesse cenário, pois ainda trabalha-se muito em função de referências internacionais.

Marcel Gomes, secretário da ONG Repórter Brasil,  destacou a responsabilidade do setor da moda, por este abranger um público trabalhador muito vulnerável, composto por imigrantes em situação irregular, ou pessoas submetidas a condições de trabalho e vida muito precárias. Ele citou de que forma o app Moda Livre (criado e gerenciado pela ONG) atua, estimulando que as marcas criem estratégias de monitoramento, e até punição de fornecedores, e melhorando a qualidade de seus serviços a partir da comparação com as outras marcas analisadas.

Ele fez reflexões sobre o fato de que a reputação de uma marca acaba sendo um valor muito imaterial (e pelo que entendi, em geral descolado da realidade), pois a maioria das empresas de moda (inclusive as adoradas pelo público) terceiriza toda a sua produção (e esta pode estar repleta de irregularidades e questões “feias”).

Ele fez uma crítica importante, de que as peças muito caras não são sustentáveis por definição,  pois reduzem muito o seu público de alcance (quanto a esse ponto, houve uma “réplica” do Leonardo, defendendo que as marcas caras podem funcionar como inspirações para soluções de escala, que outras marcas, em especial as maiores, podem resolver).

Para reforçar a ideia dessa redução do alcance, ele citou o fato de que a maioria dos trabalhadores não tem acesso às próprias roupas que produzem, e que muitos recebem R$3, por uma peça que será vendida a R$100, R$200, na loja.  Essa questão estaria atrelada a todo um sistema de valores, onde o dinheiro fica “retido” em outros nós da cadeia.

Marcel defendeu que as auditorias privadas com base em amostragens espaçadas no tempo, seriam práticas insuficientes na busca pela regularização, e devem se tornar integrais e permanentes, na perspectiva da cultura da empresa. Ele frisou sobre o dever das empresas de olharem as práticas dos fornecedores para além dessa estratégia de “amostragem”, e sim, segundo uma totalidade, e ainda, que ONG’s, imprensa e consumidores, também devem contribuir nos processos de regularização. Ele terminou alertando sobre a certa “insegurança jurídica” trazida com a reforma trabalhista, e as políticas que facilitam as terceirizações e, consequentemente, as irregularidades.

Encerrando a roda, o fundador da marca de moda consciente Movin, Pedro Ruffier,  compartilhou um pouco da sua experiência como empreendedor, destacando práticas de redução de impacto, como evitar erros de design e planejar peças com uma maior durabilidade, e a adoção da transparência de custos como forma de gerar valor para o consumidor, a empresa e também aos concorrentes.

Segundo Pedro, abrir os custos de sua marca significa mostrar que a Movin não está pagando menos, ou mais, sua equipe, mas um valor justo; e é uma forma de incentivar que seus concorrentes também adotem essas práticas pois, segundo ele, “se eles crescerem, eu cresço junto”.  Ele também falou sobre a transparência como  um mecanismo de “perpetuação” da marca, e de fidelizar o consumidor.

Curti, e você?

Até o próximo post!

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