61% dos entrevistados no relatório do Instituto Akatu não sabem dizer o que é um ‘produto sustentável’

Nessa semana fui no evento de lançamento do novo relatório sobre consumo consciente do @institutoakatu, que já está no ar, e teve como base a entrevista com 1090 pessoas em diversas regiões do Brasil.

O presidente do Instituto, Helio Mattar, apresentou no SESC Consolação, conclusões sobre o perfil dos consumidores hoje e alguns cruzamentos de dados bem interessantes, levando em conta os resultados de pesquisas deles de 2006, 2010 e 2012.

IMG_20180725_111859082
Na primeira parte da pesquisa, os entrevistados foram categorizados como um consumidor “indiferente”, “iniciante”, “engajado” ou “consciente”, segundo a maior ou menor adoção de treze hábitos no dia a dia, como ler rótulos antes de comprar produtos,  separar o lixo de casa para reciclagem e planejar a compra dos alimentos e roupas (roupas!).

print
Print do relatório. Crédito: Instituto Akatu

O perfil de consumidores iniciantes teve o maior aumento percentual nos últimos dois anos. Ou seja, desde então, mais pessoas tiveram contato com o assunto, seja pela mídia ou outras pessoas, e estão iniciando nas boas práticas. Apesar desses “novos entrantes” no tema, 61% dos entrevistados não soube dizer o que é um produto sustentável, e 60% relacionou o termo “sustentabilidade” apenas ao pilar ambiental (deixando de lado os aspectos sociais e econômicos, por exemplo).

Esses dois indicadores dizem muito sobre o desafio das marcas conscientes de moda em comunicar, por exemplo, sobre o fator de sustentabilidade diretamente associado à contratação de mão-de-obra remunerada justamente, ou da venda de uma peça elaborada por populações tradicionais; e de terem em mente que as tags das peças, posts nas redes sociais, blogs e outros pontos de contato, devem informar o consumidor de uma forma cool mas também didática e aprofundada.

IMG_20180725_101552036
Fotos do evento de lançamento do relatório. Crédito: Arquivo Roupartilhei

De volta à pesquisa, em termos regionais, o sul teve a maior porcentagem de consumidores conscientes e o sudeste, de indiferentes – sobre o sul já temos essa ideia em geral, graças aos bons hábitos possivelmente influenciados pela herança europeia, etc, etc; mas nessa, o sudeste realmente surpreendeu!

E tem mais, o maior percentual de consumidores indiferentes tem entre 16 e 24 anos, justamente a faixa etária tida como a mais promissora para trazer mudanças! O indicador surpreendeu bastante o time pesquisador, que estava presente no evento e fez comentários após o Helio Mattar apresentar a pesquisa.

Entre os pesquisadores estava o Aron Belinky da FGVces (meu colega de equipe no projeto do Índice de Transparência da Moda Fashion Revolution!). Ele atribuiu essa aparente alienação dos jovens à sua maior sensibilidade às notícias sobre corrupção e desemprego a que estão expostos,  e também à baixa qualidade do conteúdo disseminado por grandes influenciadorxs digitais.

A pesquisa demonstrou que a porcentagem de entrevistados conscientes é formada em geral por mulheres com 35 a 49 anos, ou mais de 65 anos. Sensibilidade feminina guiando a mudança!

Outra etapa da pesquisa pediu que os entrevistados escolhessem o que era desejável para suas vidas, entre uma lista de itens divididos como características de uma sociedade sustentável ou de uma sociedade de consumismo, sem que os entrevistados soubessem dessa diferenciação.

Achei interessantes essas oposições estabelecidas pelo Akatu, guiadas pela análise de um mindset/visão de mundo mais ou menos materialista e coletivista.

oi

oi2

O resultado dessa etapa foi de que a maioria dos desejos escolhidos segue a linha da sustentabilidade, o que é bastante positivo, e o que chamou a atenção foi ver como o desejo do carro próprio ainda é um objetivo bem democrático entre a população.

Sem título

Durante o debate dos convidados, insights adicionais foram gerados como as externalidades negativas que “pagamos” sem perceber, quando compramos produtos mais baratos e não-responsáveis, e o valor maior do que nunca do “comprar menos e melhor”, como consequência de um consumidor informado, participativo e feliz consigo mesmo.

Além desses insights, também foram citados:

🔹Os selos do futuro serão as próprias marcas. As empresas ‘serão’ o que os stakeholders falam delas, e não a sua publicidade.
🔹A reputação de uma empresa sustentável é construída no longo prazo, com a comunicação sistemática, estruturada e contínua de resultados (mais do que intenções).
🔹Consumidores menos conscientes -> valorizam o impacto no âmbito pessoal e a importância de sua decisão no curto prazo.
🔹 Consumidores mais conscientes -> valorizam impacto no âmbito coletivo e a importância de sua decisão no médio a longo prazo.
🔹Stigma a ser desconstruído -> nem todo produto mais sustentável é um produto orgânico, e necessariamente mais caro.

Importante fazer um adendo sobre críticas que surgiram nos comentários do post que fiz no Instagram, quanto aos patrocinadores do relatório; as grandes empresas (com grandes impactos socioambientais) Coca-cola, Cargill, Unilever, Natura e Boticário. Os representantes de cada uma delas tiveram espaço, após o debate inicial com os pesquisadores, para dar um depoimento sobre as expectativas quanto às conclusões apresentadas no relatório.

relatorio akatu
Os representantes citaram algumas ações que as empresas estão colocando em prática para reduzir o seu impacto; como a ampliação do uso das garrafinhas de vidro retornáveis pela Coca Cola; e mostraram entusiamo sobre atrair a atenção dos consumidores “iniciantes” no assunto da sustentabilidade.

Os comentários críticos tiveram foco no fato de que essas empresas, em geral, desenvolvem produtos cheios de ingredientes sintéticos, conservadores, açúcares, etc, estão diretamente atreladas à lógica do crescimento em larguíssima escala, e atuam em dissonância a diretrizes éticas importantes da sustentabilidade, como no caso da Cargill, com a utilização de sementes transgênicas em sua cadeia industrial.

Quem defende o lado positivo da parceria,  ressalta que a escolha política do Akatu foi essencial para viabilizar um estudo de grande porte; que o resultado do relatório não estaria em questão, dada a credibilidade do Instituto, e ainda que essa relação seria benéfica para influenciar positivamente as ações das empresas parceiras – lembrando que a Cargill americana já tem anunciado desde 2016, a produção com açúcar de cana, óleo de girassol e  adoçante de milho que levam o selo Non-GMO, mesmo sendo essa uma fração pequena de sua produção.

Debate complexo, e dou meu voto para o pioneirismo e trabalho essencial do Akatu, e o lado construtivo da história.

Gostou? Qual a sua opinião a respeito?

Para acessar o relatório completo, o link é:

www.akatu.org.br/arquivos/Pesquisa_akatu_apresentacao.pdf

❉❉❉❉❉❉❉❉

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s