Roteiro para a moda + sustent√°vel em Vancouver e Victoria ūüćĀ

Ol√° a todxs! Tive a oportunidade de fazer uma viagem de 26 dias pelo oeste do Canad√° nesse m√™s, passando por Vancouver e Victoria, e pude conhecer v√°rias marcas e profissionais ligadxs ao cen√°rio da moda + sustent√°vel por l√°. Tamb√©m estive em um evento com debate ap√≥s a exibi√ß√£o de River Blue¬†(entrevistei o diretor do doc em Vancouver, e vou colocar em post paralelo!) e uma feira pop-up. Foi incr√≠vel poder agregar esse conhecimento ao meu trabalho, em meio aos passeios tur√≠sticos! ‚̧

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Vou compartilhar aqui um pouco mais do que vi, e espero que seja √ļtil para trazer inspira√ß√Ķes de boas pr√°ticas, e indica√ß√Ķes para quem tiver a chance de visitar aquelas bandas! Primeiro vou contar sobre as iniciativas que conheci, depois as marcas, e no fim, tr√™s brech√≥s. ūüėČ

Em Vancouver conheci a Irina Mckenzie, uma empreendedora criativa israelense, focada em economia circular e na redu√ß√£o dos impactos da ind√ļstria da moda canadense. Em 2014 ela criou a Frameworq, uma iniciativa que promove encontros de consertos coletivos de roupas, em diversos locais da cidade, e tamb√©m Design Labs + desafios, para o desenvolvimento de metodologias para o upcycling de retalhos.

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Com Irina, nas ruas de Gastown, bairro histórico de Vancouver. Foto: Arquivo Roupartilhei

Veja um pouco mais do projeto, no vídeo curtinho abaixo, lançado recentemente para divulgar a campanha de crowdfunding do projeto (apenas legendas em inglês disponíveis, e para quem não entender, tem umas fotinhos legais):

A Frameworq continua produzindo “fix-its” sazonalmente, com grande foco na Semana Fashion Revolution, em abril – a Irina tamb√©m √© representante do movimento na por√ß√£o continental de British Columbia. Ela organizou um evento de consertos durante o Fash Rev Day, em abril, e o √ļltimo aconteceu no final de maio.

Ela criou mais recentemente o Fabcycle, um servi√ßo para log√≠stica reversa de retalhos. Com a ajuda de uma pick-up, ela e sua equipe v√£o at√© tecelagens e confec√ß√Ķes, que pagam para a retirada de todo tipo de sobras, desde inteiros rolos de tecido, at√© sacos com pequenos pedacinhos.

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Foto da primeira pop-up da Fabcycle, que rolou agora em julho por lá. Foto: Divulgação Instagram Fabcycle

Da√≠ o Fabcycle faz a ponte desse material com designers e estilistas interessados na experimenta√ß√£o com as sobras, e nesse m√™s realizou a primeira pop-up aberta ao p√ļblico, para a compra dos tecidos a baixo custo. Atualmente a Irina tamb√©m criou, e √© mediadora, do grupo de facebook Vancouver Sustainable Fashion Designers, al√©m de trabalhar como gestora de sustentabilidade da Vancouver Fashion Week (a semana de moda ‘tradicional’ da cidade). Em setembro ela vai atuar em sua segunda edi√ß√£o com a fashion week. Mulher maravilha!

Outro encontro que aconteceu foi com a diretora executiva da Eco Fashion Week, Vee Pho. Essa √© a semana de moda sustent√°vel pioneira no mundo (sim!) e j√° foram realizadas 12 edi√ß√Ķes, em sete anos.¬†Foi super rico ouvir sobre o hist√≥rico do evento, que conquistou parceria com a certificadora global de toxicidade OEKO-TEX e a l√≠der americana em pe√ßas de segunda-m√£o, Value Village Thrift.

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Com a Vee, no café Nelson the Seagull em Vancouver. Foto: Arquivo Roupartilhei

Uma programa√ß√£o que aconteceu em mais de uma edi√ß√£o foi o desafio dos “81 lbs”(ou 36 quilos). Essa √© a quantidade estimada de roupas que um americano descarta em aterros sanit√°rios, por ano. Em parceria com a Value Village, o evento cedia um vale de 81lbs de roupas de segunda m√£o para o estilista convidado, e este devia garimpar, estilizar e customizar as pe√ßas, para apresentar os looks em desfile durante a fashion week.

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Modelos em desfile do desafio “81 lbs”, vestem e carregam roupas de segunda-m√£o. Foto: Divulga√ß√£o Instagram Eco Fashion Week.

Outro desafio, com foco nos alunos de uma faculdade de moda local, foi o de criar looks com len√ß√≥is antigos do hotel zero-waste Fairmont Waterfront. O desafio foi chamado de “Chic Sheets” (Len√ßol Chic). Todo ano o hotel encaminha cerca de 1.500 len√ß√≥is para abrigos, ONG’s ou locais de descarte, e a ideia de us√°-los no desafio foi incr√≠vel!

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Fotos do looks feitos de lençois reaproveitados. Foto: Divulgação Eco Fashion Week.

Apesar da tradição e muitas conquistas bacanas, o Eco Fashion Week entrou em uma pausa nesse ano. A fundadora Myriam Laroche se mudou de Vancouver para Montreal, e a equipe está focada em projetos próprios e na busca por patrocínios maiores.

Já em Victoria, conheci a Jen, que além de ser representante do Fashion Revolution na ilha de Vancouver (porção off-continente de British Columbia), é fundadora da The Makehouse. Esse espaço lindo tem foco em aulas de costura, e venda de todo tipo de material para artes manuais. Também rola uma área para venda de retalhos antigos!

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Vista para os dois ambientes da loja: espaço de costura e outro para venda de materiais. Foto: Arquivo Roupartilhei

O espaço oferece cursos para produção de peças que vão desde lingeries e camisetas de upcycling, à bandeiras de patchwork. O local também recebe grupos fechados para atividades focadas em chás de bebê, por exemplo, quando as participantes costuram juntas o mosaico que ficará no quartinho do bebê.

Conheci diversas marcas + sustentáveis interessantes na viagem, algumas big, que não temos no Brasil, e outras pequenas, autorais e 100% focadas no slow fashion.

Em Vancouver conheci a Kotn, que é uma empresa de Toronto certificada pelo Sistema B, e estava numa pop-up linda em Gastown, centro da cidade. O foco da marca são os básicos de qualidade, feitos de algodão egípcio cultivado no Delta do Nilo, por trabalhadores assistidos no projeto social da marca.

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A equipe da Kotn estava super preparada para explicar todo o conceito e pr√°ticas da marca. Foto: Arquivo Roupartilhei

O algodão egípcio tem uma tradição milenar e qualidade altíssima: ele gera uma fibra super fina e suave (achei o toque parecido com o do Pima). Mas desde 2001 a produção da variedade caiu 95%, graças à busca das empresas por alternativas mais baratas (e também acredito que pela turbulência política).

Um dos s√≥cios da Kotn tem fam√≠lia no Egito, da√≠ surgiu a oportunidade de criar a sinergia positiva. Parte do lucro da marca j√° foi destinada a construir duas escolas para as fam√≠lias dxs trabalhadorxs, e eles tem a meta de migrar os cultivos da regi√£o para o org√Ęnico, at√© 2023. O about deles √© super rico e bem explicado, vale dar uma olhada!

Em Vancouver também consegui conhecer uma loja da Patagonia (como se não bastasse, também fui na de Victoria. Duas vezes, rs). Poderia escrever vários posts sobre a Patagonia, pois foi a marca que abriu os caminhos para a responsabilidade socioambiental na moda, e a primeira grande a usar o poliéster reciclado, em 1993. A marca segue firme utilizando a fibra sintética reciclada mas já comunicou sua preocupação com as descobertas sobre os microplásticos.

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“E se a corrida pudesse salvar a floresta tropical?” Sendo feliz na Patagonia de Kitsilano, bairro de Vancouver. Foto: Arquivo Roupartilhei

Hoje a loja utiliza uma variedade enorme de tecidos reciclados, tecnol√≥gicos e naturais, como o nylon e a l√£ reciclados, o Liocel celul√≥sico misturado a retalhos de algod√£o, a fibra de c√Ęnhamo, o algod√£o e o denim org√Ęnicos (em todas as camisetas e cal√ßas jeans!), al√©m de plumas e penas de ganso reutilizados da ind√ļstria de travesseiros, para enchimentos de casacos. Todos s√£o explicados aqui.

Duas iniciativas legais que vi na loja: uma ilha para deixar suas pe√ßas para conserto, encaminhamento para o brech√≥ online da marca (ecommerce lindo!) ou reciclagem, e uma quadro negro que comunica toda o valor em dinheiro j√° doado a organiza√ß√Ķes de conserva√ß√£o ambiental em 2018, pelo programa “1% for the planet“, criado por eles e incorporado por outras dezenas de marcas legais pelo Canad√° e EUA.

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Espa√ßo para recolher pe√ßas da Patagonia que ter√£o diferentes destina√ß√Ķes. Foto: Arquivo Roupartilhei
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Brechó online da Patagonia. Impecável e super informativo sobre pequenas marcas de uso presentes nas peças.

Em Victoria conheci algumas marcas locais da cidade, e a maior delas foi a Sitka, que me encantou. O interior da loja tem todo um clima de camping nas florestas temperadas do Canad√°, surf, e aquela vibe meio hipster-lenhador.

O maior mix de pe√ßas √© masculino, e o foco √© o algod√£o org√Ęnico e fibras naturais como linho, chambray e merino. Eles tamb√©m vendem produtos que comp√Ķe esse lifestyle, como pranchas de surf feitas de resina vegetal, lampi√Ķes old school e at√© machados para cortar lenha, para fogueira.

Eles participam do programa 1% for the planet, e gerenciam a Sitka Conservation Society, custeada pelo programa + clientes associados. Eles também vendem produtos de iniciativas conservacionistas parceiras, como calendários e livros, com o objetivo de fortalecer a causa em questão.

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Foto de etiqueta de camiseta de algod√£o org√Ęnico da Sitka, e print de post da marca no Instagram. Marca super alinhada com o conceito ativista e ecol√≥gico. Foto: Arquivo Roupartilhei
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Tag da Sitka explicando que os pilares das marca são propósito, qualidade, sustentabilidade e produção doméstica. Foto: Arquivo Roupartilhei

Tive a sorte de pegar um evento em Victoria, que aconteceu no pátio de um centro comunitário. Lá rolou a exibição de River Blue (entrevistei o diretor do documentário em Vancouver, e a conversa com ele estará em post separado!) e uma feira pop-up, onde tive contato com outras marcas locais como a Lifestyle over Luxury (uso exclusivo de tecidos de sobras de produção, transparência e mão-de-obra local e justa), Anian (fibras naturais, reuso de lã de peças garimpadas e mão-de-obra local e justa) e a Silver and Gold (uso de tencel de florestas certificadas).

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Print do blog da Lifestyle over Luxury

Rolou um debate depois do River Blue, e o fundador da Lifestyle over Luxury, Jeff Duke (foto acima) fez coment√°rios interessantes sobre transpar√™ncia de informa√ß√Ķes e o valor que os blogs devem ter, para informar e se aproximar do cliente. Quem entende ingl√™s, vale dar uma olhada no blog da marca, que tem alguns posts bacanas que falam sobre greenwashing, o anacronismo das fibras sint√©ticas e outras reflex√Ķes cr√≠ticas.

O Jeff tamb√©m frisa que a marca s√≥ faz parceria com influencers que fornecem um c√≥digo obtido no checkout do ecommerce da marca, ou seja, quem √© cliente mesmo. Pelo que vi no Instagram deles, a marca indica o trabalho dos apoiados e vice versa, de uma forma cotidiana. Rela√ß√Ķes profundas e sustentabilidade, tudo a ver!

Curti conhecer um pouco mais do trabalho da √Ānian no debate do evento, mas s√≥ vi a loja deles em Victoria pela vitrine, quando estava fechada. Ela √© repleta de letreiros nas paredes explicando as pol√≠ticas de remunera√ß√£o justa e o uso de l√£ reutilizada. Bem interessante!

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Foto do desfile da Ani√°n em edi√ß√£o do Eco Fashion Week, e abaixo, lettering explicando uma de suas principais a√ß√Ķes, o reuso de l√£ de pe√ßas garimpadas em fins de estoque.

Para finalizar o roteiro, deixo a dica dos dois brech√≥s que visitei,¬†o Lady Madonna em Vancouver, e o The Patch, em Victoria. Tamb√©m indico a “arara” de pe√ßas jeans de segunda-m√£o customizadas da Pina Clothing, em Tofino, a “California” de British Columbia.

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O The Patch tem ambientes que separam a venda de pe√ßas novas, segunda-m√£o, e um andar s√≥ para as vintage. A loja tem um ar “funky” cheia de manequins, plantas, lumin√°rias e muitas, muitas araras! Achei super diferente encontrar uma sess√£o s√≥ para roupas de gin√°stica (prato cheio para haters de brech√≥), com v√°rios tops old-school, leggings e conjuntos de poli√©ster tipo agasalho – estava tudo super lavadinho.

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O Lady Madonna é daqueles brechós que você entra meio desconfiada, achando que vai sentir aquele aroma de naftalina, ou que alguma peça vai cair na sua cabeça, mas depois de estar lá dentro, ver o bom gosto de várias peças e conhecer a dona, a hipponga Dooms, o ambiente já se torna meio mágico.

A Dooms é uma figurassa, que conserta e customiza várias peças, e entende tudo de tecidos e eras da moda. O brechó fica em cima do Museu do Jimi Hendrix (ele viveu anos da sua juventude em Vancouver) e capta muito dessa vibe psicodélica.

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Provando uma blusa vintage de seda no Lady Madonna. Foto: Arquivo Roupartilhei
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Pe√ßas de segunda-m√£o customizadas com ilustra√ß√Ķes autorais da Pina Clothing em Tofino. Foto: Arquivo Roupartilhei

Bem, √© isso, espero que tenham curtido! Compartilhem e comentem essas dicas com xs amigxs! Nos vemos no Insta @roupartilhei, por Sampa, ou quem sabe em outro lugar do mundo?? ‚̧

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