Desafios para o Upcycling em 2018 ♺ parte 2

Olár! Falamos no post anterior sobre três primeiros desafios no desenvolvimento de peças de upcycling, segundo a rotina de quatro estilistas pioneiras na prática aqui no Brasil. Nesse post vamos continuar a análise, percorrendo outras três etapas da rotina de uma marca – veja à seguir!

4 – Etiquetagem correta

Segundo exigência do Inmetro, o setor têxtil brasileiro deve comercializar peças que estejam devidamente etiquetadas com a informação da composição têxtil e das características do procedimento de limpeza. Porém, quando falamos de uma produção com base em resgate de retalhos misturados ou peças muito antigas, é mais difícil obter essas informações exatas. A estilista da Think Blue, Mirella Rodrigues, explica a solução que vem oferecendo nesses casos:

“Eu trabalho normalmente com jeans 100% algodão e consigo colocar essa informação na tag de composição. Estou começando a trabalhar com peças de elastano também. Nas calças que resgato, às vezes a etiqueta foi cortada ou a peça foi lavada muitas vezes e não consigo ler as informações, então coloco na minha tag que esse é um produto feito com matéria prima reutilizada e que não temos como ter certeza da composição exata.”

Segundo a Michelle Andrade, sócia da marca carioca Acorda – que reutiliza tecidos, lonas e plásticos em suas roupas e acessórios – esse ponto também representa um desafio: “Realmente não é um trabalho simples, na maioria das vezes não temos a composição do material. Trabalhamos com uma tag que explica o que a peça era antes e no que se transformou”.

Com foco em oferecer soluções como essa de etiquetagem, a startup paulistana Etiqueta Certa oferece um serviço de assessoria para análise química da composição de tecidos. A fundadora Karine Liotino explica o procedimento:

“Quando uma empresa tem a necessidade de determinar a composição de tecidos, entramos em contato com no mínimo três laboratórios e consultamos preços e prazos. A marca escolhe aquele que atende nas melhores condições, e para a agilidade do processo,  envia as amostras diretamente para o laboratório. Ficamos acompanhando o retorno do laboratório e então encaminhamos os laudos por e-mail.”

Karine explica que o core business da startup é o sistema Etiqueta Certa, um software que ajuda empresas a escrever etiquetas e evitar multas. O software inclui a legislação brasileira na sua programação, e bloqueia qualquer erro que o operador possa cometer. “Mas para usar o sistema é importante que a marca saiba a composição exata da peça, por isso auxiliamos nesse processo de enviar as amostras para laboratório, fazer o teste etc.”

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Modelo de relatório criado pela empresa Etiqueta Certa para facilitar a informação de laboratórios sobre a composição química de tecidos analisados. Fonte: Divulgação Etiqueta Certa

Com relação ao custo da análise, ela explica: “Num laboratório como o Senai Têxtil e Vestuário de São Paulo, que apresenta preços bastante competitivos, a média e de R$ 160,00 por amostra de tecido que contenha até 2 fibras.” 

Karine explica que a legislação obriga que até mesmo os retalhos destinados ao comércio tenham sua composição têxtil discriminada. Na prática, essa identificação do tecido dos retalhos praticamente não acontece, e abre precedente para questionamentos às normas tradicionalmente cobradas.

“Todas as leis foram feitas há muito tempo, a indústria da moda inteira tem que se refazer, e repensar certas coisas que são impostas”, fecha Mirella.

5 – Escolha do ponto de venda

Para produtos que carregam todo um valor socioambiental agregado, é importante escolher pontos de venda especiais, que tenham intenção de educar ou proporcionem contato com um público interessado na compra consciente.

A Acorda, explica Michelle, foi residente de março a dezembro de 2017 do Galpão da Malha, onde haviam dias de portas abertas ao público. A marca vende pelo ecommerce próprio, já teve produtos expostos em lojas Void do Rio, e no momento coloca em prática um plano de expansão:

“Passar pelo galpão da Malha foi bacana para estarmos mais próximos de outras marcas. Escolher PDV é uma tarefa difícil, o local precisa acompanhar nossas ideias. Estamos tentando novos pontos em outras partes do Brasil, e nosso planejamento de expansão inclui a Void SP, e contratos em negociação em Salvador e Florianópolis.” Nessas cidades, explica Michelle, as lojas possuem enfoque na produção consciente.

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Foto do último editorial da Acorda, e abaixo, descrição de pochete feita de material reutilizado no ecommerce do site. Foto: Divulgação Acorda

Já as peças da Saissú podem ser encontradas no ecommerce próprio e em multimarcas de São Paulo – também escolhidas com critério pela estilista Luly Vianna. A marca está presente nos PDV´s da D.A.M.N Project na Rua Joaquim Antunes, em Pinheiros, e na Depot Objetos e Marcher, na Avenida Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Paulistano.

“Nossas peças estão na Damn Project, pois sei que quem vai lá já está aberto a novas propostas, a consumir de forma positiva. A Depot Objetos e a Marcher são lojas consideradas referência em elegância e sofisticação. A Saissú acaba entrando lá por conta do seu design consciente, da inteligência na escolha do material e de ser um produto bonito. É ótimo também estarmos em pontos assim, pois pessoas que talvez não frequentariam a Damn, têm a opção de saber que existe esse produto, uma mala bacana, uma bolsa interessante, com uma matéria prima positiva para o meio ambiente.”

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Bolsas e porta-revistas da Saíssú no ponto de venda da multimarcas D.A.M.N Project. Foto: Arquivo Roupartilhei

Juntando o fato de que as marcas de upcycling são pequenas, em geral autorais, possuem receita pequena, e de que uma das premissas da sustentabilidade é fortalecer redes, é super positivo elas estarem juntas em espaços físicos de multimarcas.

Além da Damn, vale citar as recém-inauguradas Goiaba Urbana, também em Pinheiros, a Ahlma, no Leblon, RJ, o Coletivo 828, em Porto Alegre, além de outras iniciativas pelo Brasil. Nesse contexto, fica a lembrança da pioneira Mutações, hoje permanentemente fechada, que abriu no Rio em meados de 2010, no Largo dos Leões, no Humaitá, e em 2012 na Galeria River.

Formando redes a partir do ambiente online, estão os marketplaces Mais Alma, Portal EcoEra e Nossa Nova (lançamento agora em março), que também facilitam um mecanismo de venda e visibilidade, para marcas que teriam dificuldades de montar um espaço físico ou online próprio.

Já a possibilidade do contato direto com o produtor, diferencial facilitado pelas marcas menores, é contemplada em espaços de feiras eco-friendly como o Jardim Secreto e a Join Makers, assim como no showroom 100% consciente que aconteceu no Brasil Eco Fashion Week, em novembro passado.

BEFW / 2018

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Cliques do showroom de marcas de moda consciente do Brasil Eco Fashion Week 2017. Foto: Agência Fotosite

6- Comunicação de diferenciais ao público

As iniciativas de moda têm um enorme potencial para criar confiança e vínculos com seus consumidores/ras por meio da comunicação de seus processos produtivos + responsáveis e histórias dos produtos.

Existem cada vez mais possibilidades de espaços para comunicar essa informações e histórias, e formatos que proporcionam diferentes níveis de profundidade e estilo da informação; como a timeline e stories do Instagram, o manifesto da marca, os textos de missão e valores, os relatórios anuais de impacto, tags, defiles, etc.

Falamos sobre as Tags no início do texto, já que nesse momento de chegada de  práticas inovadoras na moda elas acabam auxiliando na informação sobre composições. Mas talvez a parte mais legal e divertida de usar Tags seja a possibilidade de comunicar conceitos, frases inspiradoras e pequenas histórias sobre o produto. Muitas marcas têm produzido tags lindas hoje em dia, como a Think Blue, e citamos aqui também o exemplo da Saissú.

A estilista Luly explica a decisão de criar as tags: “Sentimos a necessidade de informar ao consumidor o que ele estava comprando, e para isso criamos dois tags. O primeiro é o “Complete a Corrente”, onde está escrito “o próximo”, “o ambiente”, “o futuro” e o espaço em branco, que simboliza “você”. A mistura desses quatro elementos possibilita um futuro melhor, e é nisso que a gente trabalha”.

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Fotos: Divulgação Saissú.

“O segundo tag é específico para cada tipo de produto e traz uma lista de todos os materiais que a Saissú usa. Embaixo da lista, aparece a porcentagem de quanto na peça é material reciclado.” Luly conta também que: “cada lista é ticada à mão, assim quando a pessoa dá Saissú de presente para alguém, essa pessoa pode entender a cadeia produtiva da marca”.

Os desfiles sempre representaram um evento simbólico para as marcas, com o intuito de reunir gente interessada em moda, gerar sensações, afirmações de opinião e apresentar propostas visuais de estilo. Mas é menos comum ver apresentações descritivas / educativas sobre os looks na passarela, e a moda consciente tem um grande potencial nessa direção.

O desfile da Comas optou por esse caminho em novembro no BEFW. Foi muito legal ver e ouvir a estilista Agustina, lendo um texto sobre os materiais e design dos looks de upcycling, na cabeceira da passarela. Ao final do show todos tinham uma ideia clara da proposta da marca e inclusive uma noção simbólica da quantidade de material de descarte que foi utilizado para compor a coleção toda. Agus conta mais à respeito:

“A decisão de fazermos a narração não foi estética, mas foi uma questão, digamos, de sobrevivência. Somos uma marca realista e não teríamos como parar toda a rotina no galpão para criar peças especiais, conceituais. Conversei com muita gente e caiu minha ficha quando falei “vou fazer uma apresentação da marca”, que chamam de presentation de marcas menores na NYFW.”

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Desfile da Comas no BEFW. Foto: Agência Fotosite

A estilista narrou cada look, e explicou como as modelagens foram pensadas para possibilitar a maior eficiência no uso das peças com defeito, e criar a estética própria da marca.

“O desfile ‘apresentado’ foi um formato bem legal e abre novas possibilidades para as marcas pequenas, para contarmos o que estamos fazendo, sem nos distanciar de uma proposta mais low budget, pé no chão, guerrilha. Porque ao mesmo tempo também estamos procurando a sustentabilidade de produzir, vender e nos bancar.”

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