Desafios para o upcycling em 2018 ♺ parte 1

O conceito de upcycling viveu um boom de visibilidade no Brasil em 2017, mostrando que desenvolver roupas e acessórios a partir de peças de segunda mão, retalhos e componentes em final de ciclo de vida, é um dos principais fios condutores da era + sustentável da moda.

As iniciativas pioneiras no uso da técnica vão viver nesse ano uma fase de maior estruturação de seus negócios e a tendência é que cada vez mais marcas e varejistas entrem na “onda” – seja por meio de coleções cápsula ou propostas mais abrangentes, que envolverão diferentes atores da cadeia produtiva.

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Camisa “Escher” da Comas sendo desenvolvida. Foto: Divulgação Instagram Comas

Quanto às marcas pequenas, a essência das criações continuará sendo o cuidado com o planeta e a experimentação de design, mas para alcançar a sustentabilidade financeira será necessário tornar a produção mais eficiente e sensibilizar (ou seria influenciar?) novos públicos.

Com a ajuda de nomes de referência dessa prática da desconstrução, listamos 6 desafios para que o upcycling se torne mais viável e presente no mercado da moda brasileira nesse ano. Seguem nesse primeiro post os três primeiros deles:

1 – Resgate e logística dos materiais

A estilista uruguaia Agustina Comas trabalha há 9 anos com a ressignificação de camisas sociais com defeito de fábrica, e acaba de viver um ano importante para sua marca, a Comas: a equipe abriu um galpão de produção no Butantã, expôs em dezenas de feiras e desfilou suas criações na primeira semana de moda sustentável do país, a Brasil Eco Fashion Week, para um salão cheio. A Comas resgata camisas em diferentes locais e a Agus explica que o resultado das buscas varia muito:

“A questão logística depende de cada fábrica que eu compro. Tem uma que fica no interior  de São Paulo, então faço viagens para garimpar que dependem da minha disponibilidade. Em algumas vezes chego lá e compro 300 camisas, o que vai me abastecer por alguns meses de produção. Mas em outras, chego e compro só cem. Dependo do que sobrou para eles, do que deu defeito.”

Comas-Brasil Eco Fashion Week- . Foto:Marcelo Soubhia/ Agencia Fotosite
Foto do desfile da Comas no Brasil Eco Fashion Week. Foto: Agência Fotosite

Ela explica sobre a necessidade de uma cadeia de fornecimento de descartes mais organizada: “Temos que estar sempre constituindo essa cadeia, achando uma coisa aqui, outra ali. É uma questão de tempo, pois quanto mais gente fizer upcycling, mais as fábricas vão entender e entrar nessa simbiose, como algo contínuo e acessível.” Lembrando que as sobras de confecções são em geral vendidas, salvo em casos que as peças estão muito danificadas e podem ser doadas.

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Agustina analisa quadro de planejamento no Galpão da Comas. Foto: Divulgação Instagram Comas

A questão da disponibilidade também acontece na fábrica do Rio Grande do Norte onde Agus recolhe camisas de linho: “Eles produzem linho uma vez por ano, daí sobram peças porque furam ou mancham. Eles me passam uma relação e eu vejo quanto posso comprar.”

A carioca Mirella Rodrigues, da marca Think Blue Upcycled faz o resgate de sua principal matéria-prima, o denim de calças jeans de segunda-mão, em locais que vão desde brechós mais organizados, até bazares beneficentes em que as peças estão misturadas no chão.

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Foto tirada pela estilista Mirella no espaço do bazar beneficente onde recentemente garimpou calças jeans. Foto: Divulgação Think Blue Upcycled

“Busco as calças em bazares de igrejas, feiras, centros espíritas. Não acho difícil ir a esses lugares, eu já sabia dessa logística desde que criei o projeto. Meu intuito de trabalhar com calças descartadas é diminuir a quantidade de roupas que estão largadas por aí, e que iriam parar nos aterros sanitários. A quantidade é infinita.”

Para o forro dos bolsos, ela já utilizou a opção do Banco de Tecido, uma iniciativa que funciona como uma biblioteca de retalhos doados, mas viu a necessidade de otimizar essa etapa: “Em relação ao uso de retalhos do Banco de Tecido, é um problema ter que ir até São Paulo, procurar tecidos que estejam de acordo com o que estou fazendo e ainda chegar lá e não encontrar o que eu quero. No momento estou experimentando a compra de tecidos reciclados da EcoSimple, e eles entregam no Rio.”

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Foto do último editorial da Think Blue. Foto: Divulgação Think Blue Upcycled

2 – Higienização

Quando se fala em reutilização de materiais é essencial pensar sobre a lavagem e higienização para viabilizar o uso de peças que podem ter sido resgatadas até  diretamente do lixo. Cada vez mais a moda vai se empoderar de diferentes têxteis e componentes de segunda-mão para suas criações, e estes vão exigir soluções de maior ou menor escala para a etapa da limpeza.

A estilista Luly Vianna, da marca Saissú, tem nas câmaras de pneus descartados sua principal inspiração. Ela teve o “click” sobre o potencial dos pneus em uma viagem a Teresina, no Piauí, quando viu uma montanha de tiras de câmaras na frente de uma oficina. Luly voltou para São Paulo e a partir dessa inspiração, começou a testar dezenas de métodos para limpar e hidratar os pneus e deixá-los mais maleáveis para o trabalho de design:

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Montanha de tiras de câmaras fotografada pela designer Luly em Teresina. Foto: Divulgação Instagram Saissú

“No início pegávamos as câmaras, que vêm todas destruídas, sujas, algumas vem até com água dentro, e não sabíamos que produto poderia reidratá-las, pois é uma matéria-prima que está morta, um descarte. Passamos por um período de bastante pesquisa sobre o pneu, até que chegamos num produto que se chama Finish Repair, a base d’água, usado em lojas de carro para o pneu ficar mais preto e brilhante. Com a peça lubrificada e a máquina de costura regulada, conseguimos atingir uma qualidade na peça nova.”

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Luly  em um dos locais de resgate de pneus para sua produção na Saissú. Foto: Divulgação Instagram Saissú

Luly organizou um esquema produtivo lá mesmo em Teresina, onde os pneus e câmaras são encaminhados desde oficinas e depósitos, lavados com água de reuso, hidratados e chegam nas mãos dos artesãos da região de Várzea Queimada, que realizam os cortes e costuras. Os pneus e câmaras são transformados em bolsas, carteiras, chinelos e até colares como o Maxi-cacique, que ganhou uma versão em 2017 com pedrinhas de ouro.

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Bolsas da Saissú feitas com base de pneu, crochê e cintos de segurança reaproveitados.  Além do cinto de segurança, a marca também está reaproveitando sacos de cebola e linhas de costura. Abaixo, mais produtos feitos de pneu. Foto: Divulgação Instagram Saissú.

A carioca Gabi Mazepa, criadora da iniciativa Reroupa, pela qual desenvolve produtos e dá cursos de upcycling, também compartilha sobre o desafio da limpeza de peças:

“Existem casos em que tenho que higienizar centenas de uniformes antes de trabalhar. É uma questão problemática, pois não existe um serviço especializado nisso. Quando você trabalha com projeto social geralmente tem que tornar o limão uma limonada, então o que acontece é que as próprias costureiras do projeto levam para suas casas para lavar, pedem para a tia, a prima ajudar.”

3 – Design e padronização de modelagem

Com relação ao processo de design, Gabi conta que o desafio principal das peças do Reroupa destinadas à venda, é estabelecer uma linha visual entre elas: “Mesmo que sejam equipes pequenas, a gente precisa ter uma cara. Isso é uma das coisas que o Reroupa está conseguindo hoje. Mas à medida que a produção cresce, fica mais difícil manter esse padrão, pois ele se perde, as informações se perdem.”

Ela explica sobre a coleção Re-farm que desenvolveu com sobras têxteis de coleções antigas da Farm, e chegou nas lojas no início de dezembro: “Por exemplo, agora estou fazendo uma produção em grande escala – 300 peças é grande escala para mim – e a padronização começa na organização de estampas. Cartela de cores, padronização de estampas, depois padronização do corte, como encaixo uma coisa com a outra, acabamentos de costura – tem que fazer sentido.”

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Vibes tropicais na coleção do Reroupa para a Farm. Foto: Divulgação / FARM.

Sobre “encaixar uma coisa com a outra”, como disse a Gabi, vale lembrar que no upcycling são utilizadas duas principais técnicas de modelagem: uma em que a estrutura e tamanho de uma peça “principal” são mantidas e agregam-se elementos de outras peças à ela, e outra em que uma nova peça é montada do zero, independentemente do tamanho das peças utilizadas para formá-la.

“Quando falamos de roupa feita de roupa, o mais fácil é que uma camisa P vire um vestido P, pois a partir da modelagem que tenho, só cresço ela para baixo. Isso é uma possibilidade, mas nem sempre é possível. Quando estou só jogando os tecidos em cima da modelagem, tipo quebra-cabeça, fica um pouco mais fácil. Fácil nunca é, mas fico mais livre para a estampa estar sempre no mesmo lugar”, finaliza Gabi.

Agus explica que seu método de modelagem se baseia no aproveitamento da estrutura original das peças – com foco especial nas golas e estrutura de ombros das camisas. Apesar da “cara” da Comas estar bem definida, muitas peças são vendidas como “únicas” e todas possuem um charme particular:  “Como trabalhamos com sobras, essas peças ou retalhos sempre são diferentes. Os defeitos existentes mudam, daí vou trabalhar em cada peça para transformar o defeito em efeito.”

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Camisas de upcycling da Comas “saindo do forno”. Foto: Divulgação Instagram Comas

Ela conta que esse desafio com o padrão estético acontece em termos de composição de tecidos, texturas e cores. E quanto ao padrão comercial, na questão de montar uma grade de tamanhos para as peças.

“Na reciclagem é feita a padronização por meio da destruição do material – aquilo vira uma pasta e é transformado. No upcycling, agregamos valor sem destruir o material. E como nosso propósito é escalar, temos esse super desafio de sistematizar o irregular”, fecha Agus.

♺♺☻♺♺

Na próxima semana vamos publicar o segundo post desse tema que vai falar sobre etiquetagem correta, escolha de ponto de venda e comunicação dos diferenciais ao consumidor. Acompanhe o Roupartilhei no Insta e no Face e até já!

 

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