Contra a sustentabilidade por um novo materialismo na moda ⌘

Mais um artigo collab da lindona Julia Valle!

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Este título pode ter te deixado confusa/o, por um instante ou por muitos, afinal, sustentabilidade é um conceito que ninguém quer ser contra. Estamos consumindo quatro Terras enquanto só temos uma, e a noção de sustentabilidade como conhecemos parece ser a melhor resposta para sairmos desta grande queda livre em direção à nossa própria extinção. Mas será que é mesmo?

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Quando falamos em sustentabilidade, no entanto, não falamos necessariamente em alterar a forma como lidamos com o mundo para um futuro melhor. Não falamos sobre como alterar drasticamente a forma como lidamos com nossos desejos materiais, tão fundamentais no nosso exercício de SER humano. Falamos, ainda majoritariamente, em reciclagem e uso de fontes renováveis, em sustentar e não modificar a produção e o crescimento econômico.

Quando analisamos o discurso específico da moda sustentável o cenário não é tão diferente assim, apesar de a ideia do ‘menos e melhor’ estar sendo propagada (coleções-cápsula, peças atemporais, os ensinamentos de Marie Kondo). Similarmente à ideia da dieta alimentar, essas iniciativas ajudam, de um lado, o consumo excessivo, mas prejudicam, de outro, o exercício de individualidades (tanto nas expressões como nas necessidades e desejos – leia mais aqui).

A verdade é que, apesar de muitos esforços, continuamos consumindo a alta média de 20 peças de roupa por ano, resolvemos optar por fibras naturais, recicladas ou de cultivo orgânico, produções locais, ou peças adquiridas em brechós. Pensamos em reciclar e usar fontes renováveis.

Mas isso não resolve todos os nossos problemas. Para desacelerar a tal queda livre em direção ao fim, precisamos não de tornar nosso consumo sustentável (capaz de se manter), precisamos reconfigurar por completo a forma como nos relacionamos com os bens materiais.

Repensar a matéria que nos cerca não como objetos inanimados sobre os quais temos absoluto controle, domínio e compreensão; mas sim como matéria vibrante, dotada de capacidades próprias com as quais compartilhamos espaço e fazemos sentido do mundo.

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Aquarela de Kyungduk Kim

A noção de um novo materialismo, cunhada nos anos 90, vem sendo desenvolvida por filósofos e cientistas políticos já há algumas décadas e, apesar de não podermos falar de um único ‘novo materialismo’, estas teorias tem ganhado repercussão e corpo exatamente com a crescente ameaça de um esgotamento da Terra.

Como seres humanos, nossa necessidade de estímulos constantes nos faz consumir e acumular coisas. E isso não é necessariamente uma coisa muito ruim. Muitos avanços em economia e saúde tem a ver com nosso interesse instintivo por objetos. A proposta de um novo materialismo para a moda não trata de escolher materiais reciclados ou de recusar o interesse em objetos materiais, mas sim de jogar sobre eles um novo olhar.

Trata de olhar com mais cuidado e atenção para as roupas que vestimos sobre, com e através de nossos corpos, para a matéria de que elas são feitas, para o relacionamento que elas permitem. Estas teorias sugerem que a partir do momento que nos aproximamos das ‘coisas’ e passamos a entendê-las como constituintes de uma grande rede, na qual existimos e agimos, podemos compreender melhor também o momento em que vivemos.

Talvez, ao nos aproximarmos dos objetos (seja através do fazer ou da compreensão das interações com eles, como relacionamentos) possamos alcançar um consumo equilibrado. Como essa ideia da nova materialidade influencia a nossa percepção de uma peça de roupa? Será que uma camisa de poliéster imitando algodão pode realmente trazer as mesmas sensações que uma camisa em algodão orgânico?

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Será que sair vestida em um vestido da Zara, reproduzido em milhões, te trará a mesma experiência que um dia sair vestida com o suéter que sua avó tricotou para você, quando você tinha 15 anos? E ainda, quais são os valores desses sentimentos e sensações para cada uma e cada um de nós?

A verdade é que os objetos possuem capacidades que não devemos ignorar, e é certamente com e através  deles que nós experienciamos e entendemos o mundo. Se passarmos a olhar para as nossas roupas como objetos vibrantes, mais que apenas objetos perecíveis que manipulamos e usamos, talvez seja possível reorganizar nosso sistema da moda e criar uma verdadeira revolução.

Para saber mais sobre novo materialismo, seguem duas sugestões de leitura:

Carnal Knowledge: Towards a New Materialism through the Arts editado por Barbara Bolt and Estelle Barrett

Vibrant Matter: A political ecology of things da Jane Bennett

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Julia Valle Noronha é mineira, doutoranda em Design pela Aalto University, da Finlândia, e integrante do grupo de pesquisa local em Fashion and Textile Futures.

Veja mais publicações dela aqui e aqui.

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