Reflexões sobre a co-criação de um brechó ❉

Novo textinho collab aqui no Roupartilhei! Vejam o relato da Anna Lorenz e sua experiência no brechó online que criou com as amigas, o Oh!Dobrechogodó. Bio no fim do texto.

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Na minha vivência de estudante me veio uma urgência (talvez a mais persistente na cabeça dos cidadãos desse mundo): preciso dar um jeito de ganhar dinheiro. Sou muito grata por nunca me faltarem recursos, mas chega um momento em que se quer independência, de tudo possível, inclusive de grana.

Estudante de moda, sempre com guarda roupa cheio até de peças que mal me serviam ou agradavam, nada mais fácil que vender algumas delas! “Tem tanto grupo de venda de roupa no Facebook, tá na moda comprar em brechó…” Pois bem, ótimo negócio, uso meu tempo livre pra tirar uns trocados pra fazer aquela viagem, ir naquele restaurante e guardar grana.

Não que eu fosse a única que quisesse fazer isso, outras três amigas próximas – Luísa, Larissa e Olívia – estavam convencidas pela ideia, já compravam e vendiam roupas  pela internet…por que não juntarmos forças?

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As parceiras do Oh! Dobrechogodó. Foto: Arquivo pessoal

Criamos um Instagram no dia 1 de junho de 2016, para vender nossas peças (sim, há menos de um aninho!). Seria nossa oportunidade de fazer algo que gostávamos e começar algo – quem sabe – profissional (mas afinal, quem diz o que é profissional ou não?).

Começaram as sessões de fotos. Tardes garimpando peças por cada canto de São Paulo. Sentamos, pensamos sobre o que queríamos passar com o nosso Instagram: “a marca da peça não vai importar”, “todas as peças serão unissex” ,“não vamos usar só modelos que tenham o mesmo padrão de beleza”, “vamos ter preço baixo”. Passamos a ganhar clientes, e isso motivou-nos pra continuar o negócio.

Nosso primeiro evento aconteceu na garagem da minha casa, e na verdade não teve um retorno muito grande. Três meses depois fizemos o segundo evento, em um coworking onde ocorrem alguns eventos no bairro de Perdizes, em São Paulo. Com a experiência do primeiro, pudemos nos preparar melhor para o segundo, e colocamos muita energia nisso: lotamos a casa e vendemos muito mais do que esperávamos!

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Flyers dos três eventos que já aconteceram do brechó.

Nosso terceiro evento aconteceu um mês depois do segundo, no mesmo local. Mas por causa da faculdade, estágio, cursos, trabalho, não pudemos nos dedicar na preparação, divulgação, etc, como fizemos para o segundo. Os resultados foram ainda muito bons, mas não como antes, o que nos mostrou que as coisas dependem muito da nossa dedicação para darem certo (chega a ser até um pouco assustador perceber o quanto está em nossas mãos).

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Arara com os garimpos antes do início de um dos eventos. Foto: Arquivo pessoal

De fato, foi extremamente satisfatório ter o poder de colocar nossos valores em algo que pudesse ser considerado um “negócio” pelo mundo lá fora. Fazer as coisas do jeito que acreditávamos e divulgar tudo isso, promover para quem consumisse o que estávamos propondo. No entanto, logo veio a necessidade de atrair mais seguidores, mais clientes, agradar mais e mais para que a atividade na qual estávamos nos dedicando trouxesse algum retorno.

Por muitos momentos, nos vemos entre o caminho mais satisfatório financeiramente e o satisfatório moralmente. Vivemos na pele a sensação de fechar um pouco os olhos para o que desejávamos propor, a fim de manter o negócio funcionando. Por exemplo, precisarmos vender mais, para que o brechó valha a nossa dedicação, enquanto acreditamos fortemente na redução do consumo de roupas.

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Evento rolando. Foto: Arquivo pessoal

Apesar desses desafios, iniciar um negócio é sim uma oportunidade de viver seus próprios valores e concretizar o mundo que se acredita. Para nós, tem sido a oportunidade de defender a ideia do DIY (Do It Yourself – faça você mesmo), acabar com a glamourização das marcas e lojas, cessar determinações de gênero, desmistificar a ideia de que é necessário gastar para se sentir bem com suas roupas, propor a circulação das peças, quebrar os preconceitos com roupas usadas…

No entanto, é também entender que, como quase tudo no mundo em que vivemos, precisamos convencer as pessoas do que estamos vendendo, porque precisamos que o tempo dedicado a isso se transforme em resultado financeiro. Muitas vezes é preciso dar um ou dois passos para trás. Fazer nossos movimentos em favor do que acreditamos com cautela, uma vez que estes não dialogam exatamente com o que se vê no mundo por aí.

Sabemos que estamos longe do ideal e que há muito a mudar ainda (a palavra “satisfeito” não existe no vocabulário da nossa geração…). Mas quando dá certo, quando se consegue fazer o que se acredita, é extremamente satisfatório. Porque se tem a consciência do impacto que aquilo tem para quem nos consome, nos vê, nos acompanha, e que, de alguma forma, estamos fazendo alguma diferença por aí.
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Anna Lorenz Rente tem 19 anos, é estudante do terceiro ano do bacharelado em Têxtil e Moda na USP, e é sócia do brechó online Oh! Dobrechogodó.

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