Alice Schuch conta sobre o Master ‘Sustainability in Fashion’ da ESMOD Berlin

A consultora de moda sustentável para a Cirkla Modo na Europa e co-fundadora da empresa ES-Fashion no Brasil, Alice Beyer Schuch, é gaúcha de Porto Alegre, mas já tem no histórico mais de 15 anos de experiências em outros países. Ela trabalhou para a indústria de produção e desenvolvimento de moda na China, estudou no Canadá, Chile e Itália, e, na sintonia do marido alemão, mudou-se para o país em 2013.

Aproveitando seu interesse pela revolução ética e ambiental, após presenciar “o lado feio da moda” na China, ela matriculou-se em 2014 no Master “Sustainability in Fashion” da Universidade ESMOD, de Berlin – curso de especialização pioneiro, inaugurado em 2011.

A ESMOD Internacional possui sede em Paris e filiais ou escolas conveniadas em 17 cidades de nove países da Europa, Ásia, África e Oriente Médio, e no Brasil, o Senac São Paulo oferece cursos conveniados pela marca.

esmod
Imagem de uma aula acontecendo na ESMOD Berlin. Foto: esmod.com

A existência do curso já foi bastante divulgada pela mídia e blogs especializados, mas como alcançar esse diploma é uma sonho distante para muitxs de nós, a Alice conta nessa entrevista um pouco do que vivenciou nos três semestres de estudo, e ainda dá uma palhinha sobre o último Greenshowroom & Ethical Fashion Show Berlin, que aconteceu de 17 a 19 de janeiro.

✎♲♲

Alice, ao se matricular no Master, quais eram suas expectativas e objetivos a respeito do curso? 

Alice Beyer Schuch – Meu objetivo principal era descobrir diferentes perspectivas e alternativas para se fazer uma moda mais responsável, no que se refere a nosso capital social e natural. Não queria seguir conivente com o que havia visto até então, como conto nesse post.

esmod-schule-i_neu
Fachada do prédio da faculdade. Foto: europefashion.berlin

Poderia explicar como a ementa do curso está organizada?

Os módulos eram divididos em:

  • Estudo crítico e antropologia – onde éramos instigados a avaliar questões históricas e sociais, buscando entender o porquê de termos chegado onde chegamos.
  • Materiais e processos produtivos – no qual avaliamos a problemática atual e buscamos alternativas menos poluentes, que exijam menos água, etc…Têxteis e seus processos sempre despertaram certa curiosidade em mim, e acabei me concentrando nesta área, especificamente na reciclabilidade contínua de materiais.
  • Estratégias de design – estudos sobre como aplicar diferentes estratégias que, além de estender o ciclo de uso dos produtos, também reduzem descarte e possibilitam a futura reciclagem ou biodegradabilidade do produto em si. Neste módulo, especialmente desafiador, aconteceu o projeto de modelagem Zero-Waste desenvolvido para a hessnatur – marca alemã de moda sustentável com mais de 40 anos, com suporte do expert David Telfer.
  • Marketing e modelos de negócios – avaliamos o que tem sido feito por outras marcas e qual a linguagem apresentada, por exemplo. Para mim, a descoberta de novos modelos de negócios, baseados no conceito de economia circular, foi o mais relevante e me ampliou os horizontes.

    zero-waste-dresdren-exhibition
    Exibição promovida pela ESMOD, do projeto acadêmico Zero-Waste para a hessnatur, em museu de Dresden. Foto: Arquivo Pessoal

Poderia descrever algum outro trabalho prático sugerido no curso?

Um dos momentos mais interessantes no meu ponto de vista, foi a participação no workshop “Fashion in Cycle”. Durante uma semana trabalhamos os conceitos de Cradle to Cradle e Economia Circular, com a participação de profissionais de renome como Michael Braungart, Albin Kälin (Epea Switzerland), Johan Krueger (Danish Fashion Institute), e Kirsten Brodde (Greenpeace Detox Campaign), entre outros. Também realizamos trabalhos em sustentabilidade com outros grupos, como arquitetos da Bauhaus e estudantes do Institut Français de la Mode, de Paris.

Qual foi a proposta da escola para o trabalho final dos alunos? Qual foi o tema do seu trabalho final? Foi em grupo ou individual?

O trabalho final era individual, mas poderia ser feito em dupla caso justificado. Basicamente poderíamos adotar uma área foco – têxteis, design ou business. Ao final, todos deveriam elaborar uma dissertação compreendendo todos os módulos estudados, uma mini-coleção representativa e ferramentas visuais como fotos e vídeos de divulgação

Para minha tese, chamada Further – Textile rebirth catalyst, usei como base um novo processo de reciclagem química de algodão, e viajei à Finlândia a um dos laboratórios onde estão desenvolvendo o processo para entender mais a fundo as necessidades e obstáculos. Com isso em mãos, desenvolvi uma coleção reciclada e 100% continuamente reciclável, abordando processos alternativos e diferentes estratégias de design. Um modelo de negócios e uma analise crítica sobre a conexão com o consumidor também foram apresentados.

Veja Alice falando um pouco sobre seu projeto, no canal da Esmod no Vimeo:

Further – textile rebirth catalyst by Alice Beyer Schuch from Esmod Berlin on Vimeo.

Qual professor/a do curso mais te deixou bem impressionada? 

Os conhecimentos do professor Rolf Heimann (hessnatur Foundation), tutor para têxteis e processos sustentáveis, com mais de 25 anos de experiência no mercado, me abriram os olhos. A profundidade do assunto e seu imenso conhecimento prático e de mercado, me fizeram ver que sim, é possível desenvolver processos mais coerentes. O importante é manter a visão holística do processo.

hessnatur
Um dos professores do Master, Rolf Heimann. Crédito: Bernd Roselieb

Participam do curso muitos alunos que tem como objetivo lidar diretamente com a produção de roupas. Achou que a ementa conseguiu atender a uma profissional como você, que trabalha hoje com consultoria e educação?

Sem dúvidas. No meu caso, como profissional de moda há muito anos, algumas informações básicas já eram conhecidas, o que me permitia entender mais claramente as interconexões do sistema e aprofundar ainda mais meus conhecimentos. Além disso, a estrutura do curso te possibilita o aprofundamento em tua área de interesse, por isso não está ligada apenas à produção de roupas, podendo atender a qualquer área dos módulos estudados.

Os alunos da turma são, em sua maioria, da Europa?

O grupo era super internacional, com estudantes da Europa, mas também da Ásia, Nova Zelândia, África do Sul e América Latina.

Como foi ter o ambiente da cidade de Berlin como contexto para a realização do curso? Havia algum point na cidade que os alunos costumavam ir para se inspirar?

Berlin é definitivamente uma cidade com muitas opções sustentáveis, inclusive a maior feira de moda sustentável da Europa – Greenshowroom & Ethical Fashion Show – que era visita obrigatória para aqueles que querem estar a par das novidades. A ESMOD tem parceria com o evento, expõe trabalhos de alunos e participa dos desfiles, quando possível. Na edição desse ano, cinco alunos tiveram seus trabalhos expostos em um projeto elaborado com a loja Manufactum. Mas além disso, Berlin também oferece muitos eventos paralelos informativos, como palestras, debates e workshops em diferentes formatos.

further-at-greenshowroom
Looks do trabalho final de Alice sendo desfilados na edição 2015 do Greenshowroom. Foto: Arquivo pessoal

Você inclusive visitou a edição de janeiro/2017 d0 Greenshowroom & Ethical Fashion Show (são dois eventos em um, sendo o primeiro mais exclusivo e o segundo, uma feira aberta). O evento acontece mais de uma vez ao ano?  O que te chamou a atenção nessa edição?

Sempre que acontece a feira, duas vezes ao ano, estou por lá. Além de conversar com as marcas expositoras, ainda podemos encontrar organizações como o Comitê do Governo para Têxteis Sustentáveis (Bündnis Für Nachhaltige Textilien), por exemplo. Ou ainda participar de uma série de palestras e debates sobre diferentes temas relevantes, como por exemplo, sobre o impacto dos micro-plásticos.

Nesta última edição, o que me surpreendeu foi o crescimento da feira, que vem recebendo mais e mais participantes a cada ano! Um excelente indicador! Além disso, me chamou a atenção a forte presença de artigos de lã, feitos artesanalmente na América do Sul, para diferentes marcas. Prova de que o mercado Europeu entende (e pode absorver) o valor do feito à mão, artesanal, exclusivo e slow

ethical-fashion-berlin
Entrada para o salão de expositores do Ethical Fashion Show. Foto: ecotextile.com


O que está achando do retorno do público brasileiro em seu trabalho com a Tânia, sua sócia na ES Fashion (ES significa “Exclusive Sustainability)?

É gratificante ver que podemos agregar ao trabalho daqueles que já vem batalhando por uma moda mais limpa e justa! Nossa ideia inicial era desenvolver produtos, mas percebemos que o mercado já apresentava marcas interessantíssimas e o consumidor ainda estava um pouco desatento. Assim, resolvemos nos dedicar à informação e ao serviço, trabalhando em duas vertentes: consultoria e educação. O interesse em saber o que pode ser melhorado, passo a passo, tanto por parte das marcas como dos estudantes, é o que prevalece, e está muitas vezes conectado com os valores pessoais de cada um.

✎♲♲

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s