¡ Moda e sustentabilidade em Buenos Aires !

O movimento pela sustentabilidade na moda já é um fenômeno global, e certamente vamos encontrar consumidores, estudantes e profissionais da área sensibilizados pela causa, nos mais diferentes países. Levando isso em conta, resolvi investigar a cena de Buenos Aires, durante a visita que fiz recentemente à cidade. ¡Dale!

Uma semana antes que eu chegasse lá, aconteceu a quarta edição do evento chamado Moda Look BA, que dessa vez teve foco na sustentabilidade. O evento foi bacana porque reuniu iniciativas atuantes na cidade, em dois dias de conversas, uma exposição de looks e um desfile. Entre as marcas presentes estavam Dacal, Luma Baez, Cosecha Prendas Vintage, Bop Reciclado, Biótico, Sofia Bojanich, Re-UseEtchevers Laboratorio Textil e Fashion Revolution Argentina.

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Área de exposição de looks com diferencial sustentável no Moda Look BA 2016. Foto: Divulgação BOP Reciclado

Já durante minha estadia, entrevistei a publicitária Tatiana Baigorria, integrante do time do Fashion Revolution Argentina, e a estilista Carolina Etchevers, criadora do Etchevers Laboratorio Textil – para saber mais sobre suas trajetórias e, claro, treinar meu espanhol. 🙂

No Temple Bar, em Palermo, estive com a Tats – como ela mesma já se apresenta (#fofa). Ela trabalhou em agências por dez anos e desde essa época já observava um padrão de superficialidade na comunicação de moda, o que lhe gerava um incômodo: “O show e o espetáculo vinham antes da qualidade da peça. A arte sempre me encantou, mas a moda me parecia vazia”.

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Com Tats, no Temple Bar de Palermo, onde ela realiza um trabalho de engajamento com a comunidade local, quando não está se dedicando ao Fash Rev. Foto: Arquivo Roupartilhei

Após iniciar um processo para se tornar uma “publicitária sustentável” e trabalhar com marcas e campanhas que possuíam um propósito maior, em 2014 ela ingressou no time argentino do Fashion Revolution. O movimento está no país desde 2013 e conta hoje com sete integrantes fixas, todas voluntárias.

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Time do Fashion Revolution Argentina e apoiadoras. Foto: Gabriel Amato

Para quem não conhece, ele já está presente em mais de 92 países e tem como principal objetivo trazer informação sobre as ocorrências de trabalho escravo na indústria têxtil e conscientizar consumidores sobre marcas que atuam eticamente. Abril é o mês-chave para o movimento realizar sua campanha global e atividades relacionadas.

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Palestra realizada no último Fashion Revolution Day em abril de 2016, na Universidade de Ciências Empresariais de Buenos Aires. Foto: Divulgação Fashion Revolution Argentina

Tats já participou de três campanhas e ao longo do ano integra debates em faculdades e eventos. “Na Argentina temos números enormes de exploração laboral. Mais de 80% das roupas que se compra aqui, são feitas mediante trabalho escravo. São poucas as marcas dispostas a falar sobre como são feitas as suas roupas.”

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Tats realiza palestra em outubro desse ano na Universidade de Belgrano. Foto: Divulgação Fashion Revolution Argentina

Ela conta que através das oficinas anuais de formação de facilitadores, o movimento está avançando para as demais províncias (estados) do país, e que eles já tiveram experiências com streamings ao vivo pela Internet, de atividades acontecendo por toda a Argentina. O movimento inclusive lançou há alguns meses uma mapa interativo, para que iniciativas mais sustentáveis possam ter seu “pin” colocado ali, e serem mais facilmente identificadas pelos consumidores conscientes.

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Print do mapa. Foto: Divulgação Fashion Revolution Argentina

Segundo Tats, as ações auxiliam muito, porém, quanto mais divulgação espontânea sobre o tema, melhor. A marca HG Diseno e o blog La Moda en Serio, por exemplo, internalizaram o discurso do movimento, influenciando seus seguidores e clientes: “A HG adquiriu uma voz grande, mesmo sem fazer parte do staff”, disse. A marca aposta no algodão orgânico e no comércio justo e inclui os letreiros do Fash Rev em diversas divulgações que realiza.

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Vitrine da HG em foto no perfil de Instagram da marca. Foto: Instagram SomosHG

O movimento apoia e trabalha em parceria a iniciativas ativistas como o Club de Reparadores, que une pessoas “contra la cultura del descarte”, e a ONG La Alameda, que divulga listas de empresas que financiam trabalho escravo, em especial na área portenha de Flores (bairro que seria correspondente ao Bom Retiro, em São Paulo), onde estão cerca de 30 mil oficinas de costura, muitas ligadas as mais de 100 marcas já denunciadas no país. Veja um momento de apreensão de oficina ilegal em Flores, no vídeo abaixo:

“Temos um desafio muito grande, pois as condições econômicas não colaboram para que apostemos em uma compra de moda sustentável, às vezes mais cara. Por conta disso, estimulamos muito a troca de peças, o conserto e as feiras americanas (venda de roupas de segunda mão) em casas, ou pelo bairro de Palermo.”

Tats também contou que antes da próxima ativação em 2017, a equipe pretende organizar uma feira de trocas com a integração de pessoas e marcas. Com relação ao Brasil, ela acredita na sinergia entre países para fortalecer o movimento: “Estamos em situações muito similares. Temos que valorizar o conceito latino-americano e promover ações governamentais, pois o que acontece em um país, também pode acontecer no outro”.

Reutilização & acessórios

Outro exemplo bacana de iniciativa local é o projeto de reutilização de sachês de leite e iogurte para a elaboração de estampas e acessórios, realizado pela estilista Carol Etchevers. Ela trabalhava anteriormente com couro, desenvolvendo carteiras e bolsas, e começou a se dar conta do descarte que produzia em casa, quando seu filho pequeno passou a consumir os sachês.

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Embalagem de leite utilizada por Carol para a elaboração de estampas texturizadas. Foto: Divulgação Etchevers Laboratorio Textil

Ela conta: “Trabalhar com couro era uma questão cultural porque aqui se usa muito esse material. Nesse momento eu não me dava conta do impacto, de sua forma de produção e contaminação. Hoje vejo o valor que há em utilizar um descarte com criatividade e gerar uma peça bela, igual ou mais sofisticada que uma peça de couro ou material convencional.”

Lembrando que a Argentina é famosa mundialmente por suas “parrillas”, ou churrascos, e, de fato, a quantidade de lojas que vendem artigos de couro me impressionou bastante!

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Eu com Carol (direita) e sua parceira de criações, Rosa, segurando alguns dos modelos de bolsas com estampas de sachês sublimados. Foto: Arquivo Roupartilhei

Carol guarda os sachês que utiliza em casa e recebe doações de amigos e conhecidos. Para transformar as embalagens, ela corta as bordas, as higieniza e sobrepõe diversas camadas em uma prancha de sublimação a 200 graus, criando um material mais homogêneo e resistente.

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Mochila com sachês cortados em triângulo e aderidos à lona de algodão. Foto: Arquivo Roupartilhei

Para decorar o material, ela aplica transfers com “foils” coloridos, e a partir de uma técnica de termofusão, agrega os sachês as lonas para a elaboração de bolsas e mochilas. Ela conta com a ajuda de um costureiro para compor as peças. Além das bolsas, ela também produz colares e pulseiras. Para os colares, que possuem um estilo geométrico, ela trabalha os sachês como se fossem um origami.

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Colar geométrico feito apenas de sachês com foil roxo. Foto: Divulgação Etchevers Laboratorio Textil

“Fiquei experimentando por muito tempo de “portas fechadas” e priorizando minha família, a maternidade. Fui fazendo como um hobby e agora desenvolvi um negócio. Vou começar a organizar a loja online, e gerar produtos menores e mais acessíveis financeiramente.”

Carol também conta que a parceria realizada para o desfile do evento Moda Look, com a artista de upcycling Rosa Woudwyk (foto acima) vai continuar, e ambas pretendem focar em criações que unam o material dos sachês a sobras de tecidos como linho, algodão e variedades utilizadas na indústria de decoração.

¿Que tal?

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