Costureiras indianas e a escolha entre trabalho forçado x casamento precoce

Acompanhei os últimos três dias do Festival Ecofalante em São Paulo, e entre diversos documentários, assisti o “Duas Irmãs” (2015, 80 min / Jungle Sisters), dirigido pela inglesa Chloe Ruthven. Ele me chamou a atenção pois retrata de perto o cotidiano de costureiras semi-escravas da indústria têxtil, pessoas que estamos procurando ajudar indiretamente por meio do ativismo e do consumo consciente.

Ah, já faço logo o aviso de spoiler e de textão (o maior do Roupart até hoje)! Ps: Entrei em contato com a distribuidora do filme e eles não têm planos agendados para uma nova exibição no Brasil…portanto, aí vai:

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Cartaz do documentário mostra as meninas protagonistas.

O doc. começa com a narração da própria Chloe, explicando que sua irmã, Orlanda, havia se mudado para a India há quinze anos e atualmente trabalhava em uma empresa que atendia a um plano do governo local, de capacitar 500 milhões de camponeses para se tornarem mão de obra em indústrias nas grandes capitais – programa que tem estimulado um verdadeiro êxodo-rural.

Orlanda atua captando jovens de pequenas vilas rurais para se tornarem costureiras (os) de marcas globais como Gap e Vans, em regime de internato – e isso deixava Chloe incomodada, pelo teor de exploração do trabalho. Sob esse olhar crítico da irmã, Orlanda convidou Chloe para que fosse à India entender a realidade local com os próprios olhos – e lentes.

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Orlanda conversa com menina indiana durante o trabalho de captação de mão de obra

Chegando na India, a filmagem de Chloe teve foco no processo de treinamento e adaptação de duas meninas; Bhanu e Bhuntu – moradoras de vilas vizinhas, com aparentemente 15 ou 16 anos de idade. A tomada de decisão das garotas em deixar suas famílias, aconteceu pois várias amigas da vila já haviam feito esse caminho, e se elas permanecessem por lá,  logo acabariam tendo que lidar com um casamento arranjado pelos pais.

As imagens mostram que as vilas rurais encontram-se no meio da natureza, pastos e estradas de terra, estão em sintonia com tradições culturais ligadas à espiritualidade, culinária e maneira de se vestir (com os tradicionais e coloridos saris), porém, há muita falta de infra-estrutura básica, como saneamento e estudos para a população. Veja algumas tomadas no trailer abaixo:

A mãe de uma das meninas candidatas perguntou à Orlanda: “Mas porque o salário oferecido nas fábricas é tão baixo?”, e ela disse algo do tipo: “Inicialmente é baixo, mas pode aumentar a medida que elas se saírem melhor”, fazendo referência a um suposto sistema de meritocracia.

Antes de serem levadas às fábricas, as meninas passam por um treinamento de costura com a duração de dois meses. É aí que começam os dilemas trabalhistas do filme. Orlanda explica que a equipe de sua empresa recebe um salário relativo à captação das novas costureiras, se elas permanecerem por, no mínimo, seis meses na fábrica de destino. Ela conta que frequentemente as garotas são pressionadas a permanecer.

Com o final do treinamento de Bhanu e Bhuntu, elas são encaminhadas ao alojamento para mulheres em Bangalore, onde irão viver. Na chegada elas são recebidas por um monitor indiano, que anuncia em um tom áspero a rotina que deverão obedecer: acordar às 5h para se dirigir à fábrica. Almoçar em trinta minutos. Ao final do expediente, caso necessário, utilizar cerca de uma hora para ir ao mercado local, acompanhadas de um segurança. Às 19h30 o segurança faz o toque de recolher aos quartos, e às 22h as luzes são apagadas.

Elas não terão direito de receber visitas de parentes, e homens não podem entrar no alojamento. As ligações para a família também serão desencorajadas. Aos finais de semana, poderão sair por apenas algumas horas no dia, acompanhadas do segurança. Chloe pergunta ao tal segurança sobre o porquê de tanta rigidez, e ele diz que a empresa que mantém o alojamento deve “preservar sua honra” perante as famílias das meninas e a sociedade.

Após o susto da chegada, Bhanu e Bhuntu pedem para encontrar suas amigas que já estão vivendo a rotina há alguns meses. O encontro é super feliz, mas ao começarem a ouvir os relatos do grupo, elas ficam preocupadas de novo. Haviam queixas de que os monitores eram intolerantes a falhas, o volume de trabalho era enorme e, no fim das contas, não sobrava dinheiro para enviar à família. Uma das meninas falou que a rotina não era ruim, “apenas diferente”, e que tentaria permanecer.

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Em cena do filme, as duas meninas da esquerda relatam sobre o trabalho excessivo na fábrica.

Chloe e Orlanda testemunharam as conversas, e a documentarista começa a pressionar a irmã sobre as condições, de fato, degradantes a que ela estava estimulando essas garotas a abraçar – o oposto do que uma profissão verdadeiramente empoderadora ofereceria.

Nesse momento já meio tenso do filme, Orlanda recebe um aviso da empresa dizendo que a taxa de desistência das costureiras antes do primeiro semestre está muito alta, e ela precisava tomar medidas a respeito. Influenciada pela energia de mudança da irmã, ela convoca os diretores do alojamento – que são contratados diretos das grandes marcas – para convencê-los de que as meninas deveriam ter mais horas no sábado para saírem sozinhas.

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Infográfico em inglês descreve o baixíssimo valor destinado aos trabalhadores das fábricas de trabalho forçado em relação ao custo final pago pelo consumidor. Fonte: macleans.ca

Na reunião ela argumentou que as meninas não praticam esportes, nem possuem tempo livre para terem uma vida normal. Uma diretora argumenta que elas não deveriam ter essa liberdade, pois “não sabem distinguir entre o que é certo e errado” (grrr). Orlanda acabou recorrendo a uma advogada para denunciar o caso. A advogada confirmou que a situação era, segundo a lei, um crime, e que era necessário buscar ajuda dos sindicatos da área têxtil. Mas pareceu não ter ajudado muito.

Finalmente, Orlanda consegue que o alojamento das meninas novatas fosse  o único liberado em caráter experimental, para o “passeio” de sábado. A única condição era que as cerca de cinquenta internas assinassem um termo onde assumiriam a responsabilidade por elas mesmas. Sabem o que aconteceu? Nenhuma delas queria assinar! Todas ficaram com medo e inseguras e, no fim, apenas oito garotas, incluindo as protagonistas, saíram para o passeio.

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Protesto em Nova Délhi, em 2013, por conta do estupro e morte de uma menina de 23 anos, por cinco homens. Foto: Harish Tyagi / EPA / LANDOV

É importante considerar que Bangalore é a quarta cidade da Índia mais insegura para mulheres, segundo o índice de violência e abuso local. Mas já percebe-se como o próprio sistema de valores dali alimenta essa situação, pois condiciona a maioria vulnerável a uma posição de impotência, fragilidade e separatismo com relação aos homens.

Ainda focada no índice de desistências, Orlanda também organizou uma conversa das novatas com monitoras mais experientes, e que também eram vistas como “mães” dentro da fábrica. O discurso de uma delas foi exatamente na linha que Orlanda dizia defender: ela se sentia satisfeita por ter escolhido permanecer na fábrica, e mesmo com as dificuldades, conseguiu subir de posição e hoje já podia ajudar sua família e dizer que se sustentava por conta própria. Ela incentivou também que as meninas não se “entregassem” ao casamento precoce.

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Imagem de um casamento típico na zona rural da India. Foto: siddharthjain.co.in

Por fim, Bhanu dizia já estar cansada de costurar mais de cem bolsos por dia (ou seriam duzentos?), e Bhuntu chorava muito por conta de saudades da família. As duas decidiram voltar para casa aos cinco meses de trabalho.

Achei muito interessante acompanhar o processo pelo qual Orlanda passou ao longo da filmagem, refletindo profundamente se ocupava um papel mais escravizante do que emancipatório. E se teria forças suficientes para pleitear mudanças e tornar aquele ambiente mais qualitativo.

O filme faz o espectador refletir sobre o círculo vicioso em que esses atores todos se encontram, incluindo-se o consumidor final das roupas. Quem está errando ativa ou passivamente nessa história? As grandes marcas deveriam ser acusadas de criminosas, ou de apenas estarem tirando proveito de uma situação? E qual é o peso efetivo do boicote dos consumidores ocidentais (e orientais?) às grandes marcas de fast fashion?

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Inauguração da primeira loja Gap na India, em 2015. Foto: scoowhoop.com

A cultura de campo da Índia, que por séculos foi abundante e auto-suficiente, se enfraquece cada vez mais – em função da falta de políticas públicas e de interesse dos jovens em permanecer por lá (na verdade, um fenômeno global).

Certamente o surgimento de movimentos agroflorestais relevantes (um tema que a física e ativista Vandana Shiva vem propagando há anos na India), na área rural de Bangalore, equilibraria esse êxodo e ressignificaria o ambiente do campo, oferecendo oportunidades mais produtivas para homens e mulheres. E de volta à cidade, qual será a força real dos sindicatos locais para liderarem esse necessário ajuste de conduta, a partir de um movimento de base?

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A física Vandana Shiva também se intitula “ecofeminista” e é um exemplo de força e empoderamento para mulheres na India e no mundo todo.

Será que com todas essas vertentes caminhando juntas, conseguiríamos transformar essa realidade em pouco tempo?

Para finalizar, segue abaixo o depoimento da curadora do festival Ecofalante, Cândida Guariba, sobre sua visão a respeito do “Duas Irmãs”. Vamos continuar esse debate?

⚡⚡⚡⚡⚡☼⚡⚡⚡⚡⚡⚡

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2 comentários Adicione o seu

  1. Débora disse:

    texto MARAVILHOSO! Reflexão muito pertinente e importante ❤

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    1. roupartilhei disse:

      Obrigada Débora! Quem bom que te sensibilizou – nos vemos por aqui.

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